06 Novembro 2008

A MOÇA DO PASSAREDO

A moça andava sobre pássaros, daqui para lá, de lá para cá. A moça era bonita, tinha riso de ternura, olhos de amêndoas encabuladas, cabelos da cor do melaço, nem curtos nem longos, lisos e escorridos. Sua boca combinava como os olhos, que combinavam com o nariz e as maçãs da face. Acho até que não tinha face, pois quem tem uma pode ter duas faces e, ela, parecia ter uma só, de tão bonita que era; por isso ela tinha rosto, expressão. Sua expressão era a soma do que diziam seus olhos, a boca, o nariz, os cabelos e as maçãs da face. Mas ela tinha pescoço comprido, que percebia-se quando prendia os cabelos; ombros esguios, peitos salientes, nem grande nem pequenos, bunda recheada, pernas torneadas e pés delicados, vestidos em um sapato bem baixinho, de couro macio.
Voar com pássaros era o seu trabalho, pois como todo mundo, precisava trabalhar para ganhar dinheiro, para se sustentar e realizar o que gostava. Mas estava na face, ou melhor dizendo na cara, nesta também não, na expressão, que ela parecia gostar daquele trabalho. Quando agente quer saber algo sobre o que alguém nem falou, é só dar uma olhada na expressão e saber o que os olhos, a boca, o nariz, os cabelos e as maçãs da face se reuniram para dizer. Não é tão fácil assim, mas treinando aprendemos a entender o que falam as pessoas quando estão caladas.
A moça trabalhava na barriga dos pássaros de metal. Dentro deles cabiam trinta cadeiras e trinta pessoas sentadas para voar. Gente séria, carrancuda, que de trinta em trinta, iam para aqui e acolá.
Uma coisa interessante era ver que os pássaros de metal não batiam asas, ficavam com elas sempre abertas parecendo um urubu ou uma gaivota planando pelo ar. Eles também não cantam! Quando vão voar, duas barriguinhas que estão embaixo das asas começam a fazer um barulho feito um aspirador de pó.
Dois homens sentados no bico, com chapéu de general, são os únicos que podem olhar o céu pelos óculos do pássaro de metal. Eles não deixam a moça sentar no lugar deles. Ela entra e pede para sentar e eles não deixam, então ela volta. Ela vai lá novamente e diz que dará comidinhas se eles deixarem ela sentar um pouquinho só, e nada. Então ela sai dando comidinhas para as trinta pessoas sentadas e nenhuma deixa ela sentar na janela.
Eu me apaixonei pela moça e fiquei olhando para ela e ela olhando para mim. Quando eu fui descer, olhei para ela bem muito. Desci uma escadinha, sentei no ônibus e continuei olhando e vendo que ela me olhava.
Ela então me soltou um beijo e um adeus. Eu larguei a minha mala, desci do ônibus, correndo, subi a escada, abracei-a, dei-lhe um beijo na boca e depois perguntei-lhe: quer casar comigo? E ela quis.

Waldir Pedrosa Amorim

26 Abril 2008

MESMÍSSIMO


Metódico, apreciava o que não saía dos trilhos. Acordava às seis horas da matina, alongava-se ao invés de se espreguiçar, fazia a ginástica da Força Aérea Canadense, tomava banho, escanhoava a barba, punha aqua velva, aparava o bigode, penteava os cabelos após untá-los levemente com brilhantina. Vestia com esmero a roupa deixada de véspera sobre a cadeira. Combinava sapato com cinto, camisa com meia. Calça bem vincada, estirada perna com perna na noite anterior. Dia a dia...
Tomava o café da manhã preparado pela mulher desde as seis, lia a página de esporte do jornal, enquanto ouvia as notícias vindas do rádio. Ao sair, beijava a mulher, chegando ao trabalho pontualmente às oito horas. Antes de sentar-se em seu birô, espanava a cadeira e os objetos. Fora do recinto uma turba o aguardava impaciente. Dava assentimento ao próximo atendimento com o soar de uma campainha. Conferia o relógio que alarmava meia hora antes do expediente findar, interrompia o atendimento, recolocava os objetos dentro das gavetas e dirigia-se ao toalete. Penteava os cabelos e descia à garagem pelas escadas, para despender um pouco de energia.
No estacionamento, inspecionava o carro externamente. Certificava-se que não sofrera um arranhão.
Dirigia com o cuidado de não forçar as marchas, evitando o desperdício de combustível. Reduzia a velocidade quando vislumbrava obstáculos, a poupar os freios.
Almoçava como de costume, peixe nas segundas quartas e sextas-feiras; frango nas terças, quintas e sábados. Fazia a sesta nas terças, quintas e sábados. Nas segundas quartas e sextas, tinha um intercurso sexual com a mulher. Jamais uma foda.
Às duas horas, a rotina se repetia. Às seis e meia, retornava para casa. As sete tomava sopa, das sete às nove assistia a televisão e vestia o pijama listrado após banhar-se, escovar os dentes e arrumar na cadeira a roupa do outro dia.
No trabalho, não gostava de emprestar seus pertences a ninguém, especialmente suas canetas, sua borracha, seus lápis, seus carbonos, seu perfurador, grampeador, apontador, ou mesmo que fosse a folha de papel ofício que de direito não lhe pertenciam.
No atendimento ao público era ríspido, impessoal. Tratava de complicar os trâmites dos processos, exigir vírgula por vírgula e ponto por ponto de qualquer regra instituída. Regra é regra! Repetia.
Se pudesse complicar, não facilitaria. Se pudesse ser rigoroso, magnânimo não seria. “Para que informar se já deviam saber?”
Gabava-se de ser linha reta, linha dura, de criticar quem andasse fora de linha. Seu poder e influência eram da metragem dos seus caprichos.
Aos domingos lavava e encerava o carro e partia para a rinha com seus galos e canários.
Não tinha filhos. Casara tarde, quando conquistou materialmente o que almejara.
Sofria de prisão de ventre, ejaculação precoce, enxaqueca, distonia e burocracia.
Mesmíssimo morreu de enfarte logo que foi aposentado.

15 Abril 2008

O PALHEIRO DOS HAVERES COTIDIANOS


Jacó andava aflito. Sua vontade era largar tudo e fugir. Estava mesmo disposto a chutar o pau da barraca e esquecer qualquer coisa que o prendesse aos seus princípios e à vida pacata e coerente que sempre levara. Encontrava-se numa sinuca de bico! Começou a perder peso, ele que já era magro.
Desconcentrava-se nas suas obrigações, os lapsos passaram a ser a tônica da sua arguta memória, esquecia-se de coisas comezinhas do seu cotidiano, como pôr combustível no carro, encontrar a carteira, e um dia foi surpreendido calçando meias diferentes em cada pé.
Nunca havia faltado a um compromisso e, desta feita, tendo perdido as chaves do seu ambiente na universidade, terminou por atropelar uma reunião com os professores da pós-graduação.
Perambulava no trajeto de volta a casa, envolto em delírios. Os caminhos de rotina pareciam-lhe nuvens incógnitas, onde suspirava, ora de alegria, ora remoendo o conflito novo que adquirira.
Ruminar na cama ao ir dormir, e não só ali como nas brechas dos dias e nos fins de semana, assumia uma progressão geométrica.
Era tido como uma pessoa desligada quando empreendia uma atividade que lhe exigia absoluto empenho, contudo, não daquela maneira! Tampouco era uma nova atividade e sim uma nova paixão que o contaminara como uma epidemia.
Em casa tudo ia bem, sempre entusiasta, dedicado, amante e amado por sua família. Casado, justo há 35 anos, com uma mulher, com quem dividia com tesão a cama e os altos e baixos da vida; uma maestria de conviver, calcada numa sinceridade sem limites.
Possuía um casal de filhos já adultos e independentes, além de dois netinhos que davam ao casal o sabor de um doce recomeço. Em dados momentos, até achava que sua alegria familiar era motivo de certa inveja para os demais.
Professor universitário, era reconhecido e estimado por seus alunos. Sua relação com todos era pontuada por uma serenidade e uma jovialidade que não interferiam no respeito que todos lhe tinham. Muito pelo contrário, seu senso de humor e de responsabilidade, sua experiência, sua postura sem preconceitos, faziam com que lhe nutrissem o afeto de um amigo mais experiente, companheiro, ou mesmo de um pai. Um paizão, melhor dizendo.
Carinhosamente dava sua opinião, muitas vezes transmitia suas próprias experiências humanas, com a mesma sem cerimônia com que pacientemente escutava e apreendia a dos alunos. Escutava suas aventuras, ouvia falarem de seus namoros, expectativas na vida e predileções. De tudo arranjava um modo sutil de orientar e expressar suas descobertas e convicções. Dizia: “amem bem a vida e sempre tenham intimidade com o conhecimento dela, seja em que nível se apresente. Curtam as diferenças e afinem a sensibilidade, o ouvido, o tato, o olfato e o paladar, pois todas as coisas costumam se diferenciar por estes atributos, que só empregamos para finalidades muito restritas.”
O paladar que reconhece o alimento, o vinho, a água; pode ser extrapolado. Saber apreciar enriquece memórias extensivas ao senso estético, à música, à literatura e até às relações de amizade, de afeto e de desejo sexual.
Não só olhem, mas vejam, enxerguem, apreciem de novo por ângulos diferentes. Dias diferentes mudam coisas aparentemente iguais. E emoções dormidas sempre acordam com outra cara. Estudar é um continuum, aplica-se a coisas objetivas ou não. Aplica-se ao utilizável e utilitário; mas também ao prazer do espírito que se enfada com o estático, o parado e o inexplorável.”
Eram conversas e preleções memoráveis. Em certos dias especiais, alguém trazia um filme que era assistido e comentado por todos. Noutros, excetuando aqueles das famosas reuniões de revista, onde os artigos eram de revisão científica, todos comentavam um livro não técnico, um poema, ou um artigo literário e permutavam entre si os originais ao fim do encontro.
Aquela relação já de longos anos, com turmas diferentes que se sucediam, afagava-lhe o ego ao ver progredindo os seus objetivos de educador e de estudioso pesquisador. Não tivera um só mestrando que não houvesse concluído sua dissertação e, no curso de graduação, eram contados nos dedos os que passavam com ele e haviam sido reprovados.
Sua fama de exigente, no início de sua carreira fora suplantada pela de profissional que motivava e preparava os seus orientandos para a vida. Alguns deles, já profissionais bem colocados no mercado de trabalho, mantinham com ele as relações de amizade construídas no passado. Não raro, procuravam-no para um conselho ou opinião. Uma vez por ano, os ex-alunos reuniam-se para um jantar de confraternização.
A vida rolando célere, tranqüila e de uma hora para outra era como se houvesse sofrido um solavanco inesperado que o desmoronara.
Estava simplesmente apaixonado. Literalmente hipnotizado, numa paixão súbita, inusitada, primaveril. Uma aluna da graduação, bem mais jovem que ele, com idade de ser sua filha. Uma destas menininhas no esplendor da juventude e da formosura. Não conseguia descolar sua face pueril da sua mente, seus olhos, seus peitinhos salientes, sua bundinha empinada, seus soltos e longos cabelos loiros, as barroquinhas provocadas pelo seu sorriso, a barriguinha, sempre aparecendo a cada movimento dos braços, deixando à mostra um umbigo onde se aninhava um delicado piercing numa sinalização sedutora. “Um bebê,” pensava ele. “Um bebê com ares de quem possui desenvoltura para cavalgar o mundo. Mas por que meu mundo, meu Deus?” Ela aparentava ter mais idade do que possuía; mais por ser viçosa do que por expressar qualquer semblante sisudo ou grave.
Sofia era estudiosa, compenetrada, decidida e ágil nas suas tarefas; longe de ser pretensiosa, sua desinibição era a marca de sua determinação de fazer bem feito o que se lhe incumbia. Sua relação com os colegas e com Professor Jacó era fraternal. Ele nunca detectara qualquer atitude ou olhar de interesse dela por ele.
Fascinara-se pela sua maturidade e espírito de liderança perante o grupo? Pelo incomum conhecimento tanto de assuntos curriculares, como daqueles outros relacionados à sensibilidade humana de que ele tanto prezava? Estaria muito entusiasmado e envolvido com as relações com os jovens e se distanciado sem perceber da sua mulher? Ele até já havia se saído de situações em que houve um jogo sedutor por parte de alguma aluna. Mas Sofia não, era ele mesmo quem, com certeza, tresloucara.
Conferiu com seus próprios botões quantas vezes já passara por situações nas quais as insinuações e cantadas sutis de mulheres mais jovens ou da sua geração, no máximo lustraram um pouco a sua vaidade. Sempre cônscio do seu papel, conseguira resolver sem traumas aquelas paixões juvenis. Apreciava muito refletir sobre os papéis que as pessoas desempenhavam na vida e separá-los. Tinha uma vida conjugal satisfatória e, reconhecida por todos como tal. Conseguia delimitar bem que o seu papel, de certa ascendência com os jovens, não poderia ser motivo para um envolvimento que os confundisse, mesmo admitindo que isto pudesse acontecer. Saíra com tranqüilidade das vezes em que isto raramente havia ocorrido.
Entretanto, algo diferente ocorria naquele hoje particular. Ele nem sabia definir por que razão estava se sentindo loucamente apaixonado por Sofia. Sequer conseguia identificar uma atitude nela que lhe permitisse afirmar que o tentara ou dera-lhe cabimento às sensações e ao desejo que loucamente se avolumavam dentro de si.
Passou a examinar-se, concluindo, algumas vezes, que estava ficando mais velho e que isto, quem sabe, era fruto do desejo que tinha de se perpetuar jovem. Seria a andropausa? Não entendia aquela atração fatal, súbita e unilateral.
─ Puxa vida, meus receptores estão me subornando! Estou vesgo e sem autocrítica!
Outras vezes, encontrava motivos em comportamento mais carinhoso ou de maior interesse de Sofia para com ele. Em algumas ocasiões, se incriminava pela babaquice e pelo ridículo do seu estado afetivo sem nexo. Noutras, concluía pela singeleza hormonal da atração entre macho e fêmea.
─ Os hormônios!
Apenas isto e tão somente, a dar sustentáculo à sua intrépida paixão.
Justificativas sobre justificativas não domavam a ferocidade de seus desejos. Lembrava um cancioneiro que dizia: “se queres ser feliz como me dizes, não analises”.
Todavia, analisar e sonhar passaram a ser escudos contra a sua falta de coragem de tomar alguma atitude de conquista que desaguasse em certezas que lhe amedrontavam. E se Sofia simplesmente considerasse infundadas e ilegítimas as suas pretensões?
Aquela negativa que se desacostumara a receber, desde tempos anteriores ao seu namoro com sua mulher. Como ficaria? Como encará-la, depois que dissesse: “mas o senhor, tão bem casado, com filhos, uma família tão linda e uma vida estruturada; e com toda nossa diferença de idade!” Morreria de vergonha, quem sabe tivesse dificuldade de encarar os alunos, estes a julgarem-no um dom Juan, um falso moralista, passando cantada em alunas? E com toda aquela performance de paizão!
E a sua família que, a despeito desta paixão, continuava amando tanto! Como se reestruturar ao desmoronar seu mundo a tanto custo conquistado! Nalgumas noites, tivera pesadelos com a mulher e os filhos. E sempre uma culpa medonha a condená-lo pelo que não fez, mas que desejou fazê-lo. Outra noite sonhara ter um caso extraconjugal e a seguir ter contraído HIV. Noutros, trepando sofregamente com Sofia, ejaculando oniricamente no pijama que foi jazer no cesto de roupas pela manhã.
Seguiram-se os pensamentos sublimados. ─ Quem sabe não poderiam viver a condição de amantes! Nada seria destruído da sua relação familiar. Seriam dois anônimos, dois clandestinos. Passou vários dias nesta conjectura que aplacava sua ansiedade.
Diz-se dos amores clandestinos que são sempre intensos, rejuvenescidos pelo instinto natural do ser humano de repelir a norma e o normal. Os amantes sempre festejam os encontros, são amores ímpios, amores que rugem, amores que rasgam, amores que ferem, amores bandidos, são amores néctar, amores essência, amores concentrados, amores extratos, amores perfume. É brasa atiçada, é corpo fervente, é lábio de fogo, são línguas ardentes. Deixam tatuagens, monogramas, manchas, cicatrizes que se esfoliam todas as vezes que o amor resiste. Os amantes têm signos próprios, olhares pidões que não exigem, fazem-se. Conseguem esconderijos, ilhas, brechas no tempo e tempo nas síncopes musicais da arte de amar. São cúmplices empedernidos. Têm no peito a segurança da promessa e na promessa a certeza da dúvida. São frutos maduros de árvore impúbere, são destemidos com a vida e assombrados com a morte. Os amantes, quando muito, são ex-amantes temporários e sabem olvidar o tempo. Os amantes são casais de enamorados em qualquer idade. São namorados que não deixarão de sê-lo.
Porém, tão jovem e com um futuro promissor à sua frente, não parecia este o perfil de Sofia para a vida. Este se coaduna com as mulheres maduras, as jovens viúvas, as casadas, órfãs de afeto, as jovens menos aquinhoadas em busca de um parceiro maduro seja por qual razão se acredite. Também o é para as aventureiras, para as decepcionadas com o casamento, ou simplesmente para as pessoas que, como Jacó, apenas roem de paixão. De uma paixão verdadeira e perplexa.
Além da paixão, Jacó nutria um bem-querer respeitoso e humano por Sofia, claro estava que não pretenderia transtornar-lhe a vida. O objeto do seu amor foi amalgamando a proteção que lhe dava contra ele próprio. Fundou-se a responsabilidade e o respeito neste platônico amor unilateral. Concluiu que tudo isto, por alguma razão era inexeqüível. Sua tristeza foi maior ao se ver sem interlocutor. Sentiu-se traindo seus conceitos da verdade quando, por conveniência, resolveu calar de Sofia toda esta riqueza de sentimentos e de indagações, em que ela se tornara seu personagem principal. Estava negando-lhe, mesmo que apenas fosse, o prazer da lisonja ou o contato com uma oportunidade de interagir, o que a faria mais robusta afetivamente.
Rememorou sua atitude preconceituosa sobre o amor e as relações humanas, quando se contemplava velho e ela jovem demais. Seriam estes conceitos que deviam nortear uma relação?
Contudo, persistiam-lhe dois profundos dilemas. Não desejava conviver com a possibilidade de torná-la infeliz de algum modo e sabia que seu estado passional não permitia analisar as conseqüências sobre o seu casamento. Passou a assumir a infelicidade de Sofia, de quem desconhecia o sentimento, juntamente com o medo de suas próprias reações como teses.
Restando-lhe a paixão, tentou defini-la, aprendê-la. Emoldurar a paixão passou a ser sua obstinação de entendimento. Do filósofo alemão Immanuel Kant arrancou de seu criticismo a definição de uma inclinação emocional violenta, capaz de dominar completamente a conduta humana e afastá-la da desejável capacidade de autonomia e escolha racional. Pareceu-lhe uma boa baliza para se percorrer a vida em estados anímicos de profunda mania.
De outro filósofo alemão, Friedrich Nietzsche captou para paixão a definição do estado em que determinado afeto organiza e orienta toda a difusa emotividade humana em uma disposição plena de saúde e vigor. Que beleza! Brindou Nietzsche, e pensou em deixar seus afetos ganharem tempo e imporem orientação junto com a razão.
A lógica aristotélica que enunciava sentimento, gosto ou amor intenso a ponto de ofuscar a razão, nada lhe acrescentou, senão o esforço que já estava empreendendo. Ademais, dela discordou por furtar da razão o estímulo vital da paixão não desmedida.
No existencialismo, influenciado pelo pensamento de Kierkegaard, onde a realidade concreta do indivíduo com sua mundanidade, angústia, morte, etc., estão incluídas no centro da especulação filosófica, sentiu-se resgatado à categoria de quem podia ter processos existenciais comuns e banais. Finalmente, uma contraposição às doutrinas racionalistas diluidoras da subjetividade em abstratos conceitos!
Isto lhe aplacou a tendência racionalista que buscava o caminho da isenção na razão. Afinal de contas, não se pode compartimentar sentimentos humanos, refletiu.
Suas atividades cotidianas prosseguiam e sua espontaneidade com Sofia tornara-se menor que com os demais. Olhava-a de longe quando sabia que não o via. Tornara-se mais recatado que o habitual, menos efusivo. Esforçava-se para não exalar odores de paixão. Contraditoriamente, contava os minutos que se passariam para que ela fosse embora e as horas ou os dias que ficaria sem a sua presença
Percebeu que sofrera algumas transformações, cuidava mais da apresentação e do vestuário. Notou o processo de rejuvenescimento interior que apenas a possibilidade de um novo amor processou em si. Vislumbrou como possível a capacidade da conquista, da sedução e a expectativa do novo. Mesmo que nada mudasse, já valera o inventário que fizera de si a estimular o eu.
Seu sentir vígil e entristecido marchava para entender que passaria a perder o que nunca possuiu, concluir o que nunca debateu, calar o que nunca falou. Sentia-se sem monogramas, cicatrizes e marcas de amor; negado sem nunca haver sido aceito, derrotado sem haver travado batalhas. Sentiu-se um bunda mole!
Dava-se conta que, concretamente, amava sua mulher, tinha para com ela carinho e mantivera uma atração crescente, que, em muitos momentos contabilizou como até maior do que nos anos mais tenros da sua convivência.
Mas ninguém ama alguém contra o outro. Tinha bem claro na sua cabeça que não era um vilão, nem um bunda mole como opinara. Embevecera-se por Sofia e ponto final. Não gostava da idéia de que isto fosse descolorido pelo tempo.
Permaneceram em seu peito os reflexos de sua ambivalência curtida com sincera e dolorosa paciência, naqueles um e meio ano de fantasia. Valeu-se do consolo de pensar na serenidade de Sofia e seus encantos. Um anjo bom na sua vida. Desmistificou-lhe concepções de certezas e imutabilidades, redimensionou-lhe a maturidade, devolveu-lhe a atemporalidade das paixões e do amor.
Um belo dia, chamou Sofia e contou-lhe tudo. Meio gaguejando desabafou com ela sua inusitada paixão. Lágrimas em contas rolaram de ambos. Ela comunicou-lhe que amava muito um rapaz com quem se casaria dali a seis meses. Revelou-lhe o carinho e a admiração que lhe tinha e que falava com seu futuro marido sobre ele como um homem cujos atributos idealizava que ele tivesse como seu companheiro. O senhor é um exemplo para mim e apertou-lhe as duas mãos num gesto de gratidão e pediu-lhe para dar um beijo em sua face e assim o fez. Era um beijo filial e terno.
Aliviado e agradecido, ele tirou do bolso um poema que lhe havia escrito e lho entregou. À sua frente, ela, pausadamente, o leu com os olhos anuviados:

Os olhos pensam ver o que espiam,
a garganta que engole
não degusta o que devora.

Ouvidos de mercador
não captam cantos,
singelezas.

Num entremeio de sombra
e penumbra
há claridade.

A luz monocromática
que inflama retinas,
estraçalhada em nuvens baças,
constrói um arco-íris.

Matizes sutis
inscrevem sonhos,
obscuras satisfações,
metáforas.

No palheiro dos haveres cotidianos,
cabe às ciências investigar razões,
só à poesia, especular paixões.

21 Julho 2007

Bem menos que uma pluma.

Todos os dias morrem milhares de pessoas neste mundo de meu deus. Hoje fui noticiado da morte de um rapaz aos vinte e um anos de vida num acidente de motocicleta. Esta é a semana das mortes ocorridas em São Paulo, decorrentes de problemas envolvendo uma aeronave da TAM no aeroporto de Congonhas.
Ninguém havia que me fosse conhecido, de quem possuísse algum referencial, salvo o jovem da moto, cuja notícia foi sofrida por uma pessoa amiga. Neste caso compadeceu-me o sofrimento da pessoa que conhecia. Isto aproximou sua dor dos meus sentimentos. Na tragédia do avião da TAM, não experimentei perdas que me aproximassem de um sentir sujeito à dor pessoal. Nem por isto me foi indiferente o acontecimento, visto que ele tocava direto no coletivo, poderia ser augúrio de outros, ou repetição de passadas tragédias. Senti compaixão em ambos, porém seria infiel à verdade se falasse em dor pessoal.
Assim as perdas caminham ao alcance de quem vive. Numas interiorizamos o luto, noutras sequer relacionamos como nossas perdas.
O mesmo nos ocorre com os ganhos, o progresso, os avanços da humanidade, os nascimentos. O fato é que o nosso universo consciente, aquele que torna sensível o significado para cada um ou para a coletividade, trabalha com um registro dinâmico e multifatorial.
Nascem bebês aos milhares todos os dias, morrem milhares de crianças cotidianamente.
A menos que relacionemos através da consciência adquirida com a prática social e o aprendizado, estes dois fatos poderão significar nada, pouco, ou muito. Talvez nos ocorra pensar em planejamento familiar, medidas de controle da mortalidade infantil, combate a pobreza e a miséria etc.
Ontem fomos noticiados do falecimento do senador baiano, Antonio Carlos Magalhães, alcunhado por Toinho Malvadeza. Alguns jornais estamparam em suas manchetes de hoje a morte do último dos coronéis brasileiros. Não desejo aqui pesar ou medir suas representações para o cenário pessoal e até discordo de que tenha sido o último dos coronéis no sentido pejorativo que os coronéis nordestinos desempenharam os seus papéis.
Quando jovem militante no movimento estudantil, pelos idos de 1968, tivemos a coragem e a consciência de sair às ruas para protestar contra a ditadura. Nesta época o Antonio Carlos Magalhães perseguia em sua Bahia, estudantes, operários, camponeses que protestavam e lutavam pela mesma causa.
Um livrinho vermelho vigorava às escondidas, com os pensamentos de Mão Tse Tung e dizia: A morte de alguns pesa mais que o Monte Taiwan, a de outros menos que uma pluma.
Não sou mais jovem como outrora, nem foi apenas por ser jovem me arrisquei e perdi amigos, compatriotas ou sofri com a prisão, a tortura e o desaparecimento de tantos. O livrinho a repressão confiscou, o que ele possuía de relevantes para mim era este pensamento que guardei na memória.
Revendo o passado, acho que fiz muito pouco, e repetiria em maior escala o que fiz. Naquela época eu imaginava que derrubando a ditadura, a democracia emergiria trazendo justiça social e paz. Eu pouco entendia de política, dos políticos e do poder.
Olhando a biografia política do homem Antonio Carlos Magalhães, única que me compete analisar como cidadão, eu diria sem temor de errar que à democracia brasileira sua ausência pesa muito menos que a mais leve das plumas.
Seu mau exemplo foi mais pesado que a montanha do pico da neblina.
Infelizmente não foi o pior dos políticos nem é o último dos coronéis.

15 Julho 2007

OS JOGOS PAN-AMERICANOS


Assisti a abertura dos Jogos Pan-americanos 2007 pela televisão.
Coração desarmado achei belo o que vi.
Relembrei que outrora meu coração não conseguiria parar naquela estação e vibrar.
Meu coração brasileiro, escorraçado pela mídia comprometida com a ditadura, perdera o elo com a espontaneidade.
Em sendo torcedor bissexto e ocasional de futebol, concentrava minha paixão apoucada nas copas do mundo. Inda assim, tive dificuldade de torcer contra o meu país nos anos de chumbo. Ficou o ranço, o exacerbado espírito crítico de herança.
Perdoem-me, portanto os que se acostumaram comigo, permitam que eu abra o verbo para uma coraçonada.
Gostei muito do espetáculo de abertura do Pan 2007, desde a coreografia, passando pela escolha da temática, a música de Villa Lobos, Carlos Gomes, os chorinhos, até a interpretação pungente e cheia do significado do hino nacional, vindo com as inscrições de brasileiridade, expostas na alma e na voz de Elza Soares.
Ah Elza! Você que reaviva em nós o nosso Mané Garrincha.
Vocês que juntos ou independentes, jamais deixarão de nos trazer a leitura de um Brasil genuíno, talentoso, irreverente, magnânimo, despreocupado de cantar ou driblar por dinheiro e de ser cara para gringo ver.
Elza Soares é na garganta, os pés de Garrincha; ele foi nos pés, a garganta de Elza.
O Rio de Janeiro continua lindo e continua sendo.
O Rio de Janeiro pede socorro pelo Brasil que implora, além do que já resistiu, sofreu, conquistou e padecerá na trajetória da história, para se recompor. Por isto, até das vaias, gostei.
Arregale os olhos meu caro presidente! Senhores políticos, vistam estas vaias sobre as vossas carapuças.
Não conseguirei falar de tudo. Direi que saí do todo com a satisfação de cada particularidade. Direi que a Orquestra Sinfônica Brasileira e o Quinteto da Paraíba me comoveram.
Gritarei que a Paraíba estava lá.
Vociferarei que somos muito mais que um país de bundas e mulatas ou, uma república do gozo e do carnaval.
Perguntarei a mim, porque tenho sentido gosto pelo Rhythm and Poetry, ritmo e poesia, RAP, que meu filho João me ensinou a ouvir.
Refletirei sobre a linguagem verbal-musical, que os jovens incorporaram da Jamaica, desacolchoando as nossas músicas de protesto, engendrando um protesto ritmado, direto, que vem dos guetos suburbanos e metropolitanos.
Desejarei não ficar colado aos protestos do meu tempo de outrora. Passearei de braços dados com o tempo de agora.
Gostei muitíssimo da coreografia e da interpretação de Uma Prece pela Paz na voz de Chico César e ao som do Quinteto da Paraíba. De quem é a letra? Não sei. Desculpem-me e me informem. Guardei quase todo o poema:

Paz
Eu não quero mais sofrer
Paz
Não queremos pra depois
pro pai, pra mãe, para os outros, para nós.
Para desatar os nós
Para estreitar os laços
Pra quem gosta de abraço
Para os que vivem sós

SOS grita o povo
Socorro berra o asfalto
Violentos! Mãos ao alto
Pra que tudo viva em paz.
.........................................
Na palma da mão
Na ponta do pé
Com os olhos no céu
Do alto do chão
Digo Paz.

Por fim, digo a mim o que não aconselho a todos:
"Se queres ser feliz como me dices no analices... "


Waldir Pedrosa


Foto de RUBENS AMÉRICO - Revista O Cruzeiro 18 de julho de 1964


30 Junho 2007

AS BOAS LEMBRANÇAS DE UM AMOR CONQUISTADO

Perdi meu pai no dia dezesseis de março de 2007, uma sexta feira.
Juntamente com os nossos familiares e amigos velamos seu corpo e o enterramos no final da manhã do sábado. Coube a minha irmã e eu organizarmos o funeral.
Tarefa difícil para quem dedica toda a sua atividade aos vivos. Na funerária percebemos a distância entre o nosso sentimento e o do comércio de artigos para defuntos. Em verdade, apenas se quer alguns palmos de terra e um caixão, para que a natureza cumpra seu ciclo apossando-se do corpo pela decomposição dos minerais e matérias orgânicas, que reciclados servirão a outras composições de vida.
Os preços dos ataúdes, diz o vendedor, variam entre trezentos reais e alguns múltiplos de mil reais - e sai a explanar as diferenças de qualidade e conforto. Minha irmã retruca: ─ não damos nenhum valor a isto, se fosse para mim necessitaria apenas de um buraco na terra e pronto! O mais importante para mim se foi – a vida de meu pai.
O agente funerário buscando ser convincente em vender o mais vantajoso, declara: ─ o meu pai disse que poderia ser enterrado dentro de uma rede, mas quantas coisas diriam os outros se nós fizéssemos a sua vontade, – falariam que nos fez tanto em vida e não tivemos nem a consideração de enterrá-lo com dignidade. E recita de cor outros exemplos de julgamentos alheios, na tentativa de nos induzir ao mais caro.
Aquele diálogo me impacientava, não possuía élan num momento de comoção, para argumentar sobre a irrelevância de tudo diante da morte. Pensava com os meus botões, como o ser humano era frágil e preconceituoso, encontrando até na morte motivos para seduzir pela desigualdade. Resolvi pedir-lhe que nos mostrasse os caixões. Prontamente escolhemos um. Ainda fomos inquiridos sobre se o falecido era magro ou gordo, ressaltando a necessidade de um caixão reforçado. Meu pai nunca estivera tão leve, inda mais sem a imponderável massa da alma.
Solicitamos que nos discriminasse todo o necessário, desejaríamos resolver tudo ali mesmo. Com ar piedoso, tentando dar ar de nobreza ao enterro, saiu desfiando os itens e sua dispensável opinião. ─ Uma urna funerária, flores que aconselho serem brancas tratando-se de um homem, velas, castiçais e um crucifixo caso sejam católicos, uma estante para apor um livro de presença, um livro que será cortesia da casa, translado do corpo para o velório, pagamento da sala do cemitério, agendamento da hora do enterro, registro do óbito em cartório e pagamento de taxas à prefeitura. Se desejarem coroas de flores podem anotar os dizeres.
Deveríamos ainda comprar ou alugar um jazigo no cemitério, cujos preços avantajados nos foram repassados.
Lembramos que um irmão nosso havia posto em seu nome o jazigo da nossa mãe e tivemos que solicitar-lhe resolver os problemas atinentes a este mister.
Mas não parou por aí a nossa peregrinação. Precisávamos do atestado de óbito de nossa mãe, a fim de comprovar que papai era viúvo há vários anos, o que nos fez levá-los ao cartório. Após o preenchimento de vários formulários, obtivemos o habite-se do corpo na necrópole urbana.

Os sentimentos, a significância da perda para cada um, cede espaço para providências inevitáveis que de algum modo imediatamente nos reinserem nos limites das práticas sociais vigentes. E isto é de algum modo benéfico. Porém as distorções de valores e a burocracia com certeza são acintes, não somente na morte.

O respeito pelos que tiveram laços com a pessoa que morreu, faz-nos lembrar de comunicarmos o seu falecimento. Telefone, e-mail, jornal, outrora rádio e o boca a boca nas comunidades menores e mais próximas. Um pequeno anúncio fúnebre num jornal, pelo seu valor, não é acessível a todos.
Vale lembrar que não nos encontramos solicitando a presença numérica de pessoas para conferir importância à família do morto, e muito menos a este. Neste momento as presenças são de reverência a quem morreu e de solidariedade com seus íntimos.
É importante ser coerentes diante da morte. As religiões e as crenças em geral expressam seus ritos. Como deixar professar os modos de reverenciar, despedir-se de quem se quer bem? Neste instante há de se ser o mais eclético e ecumênico possível.
Este é um momento no qual não há que se esvair em sofrimento e tampouco negar a tristeza, a saudade ou embuçar o choro. São os nossos ritos de separação e luto que estão em jogo. Nem próprios nem impróprios, nem feios, nem bonitos. Humanos.
Nosso pai fora um homem trabalhador, simples, alegre, sensível, sentimental. Resolvemos trilhar pelo caminho do que ele fora em vida. Minha irmã e sua filha, católicas, junto com outras pessoas do seu convívio, trouxeram o toque da religiosidade católica. Um padre amigo de nossa família que participara na convivência e na celebração de casamentos, batizados, bodas e celebrações da morte encarregou-se da celebração dos rituais católicos. Relembrou ter-lhe ministrado a unção dos enfermos por duas vezes. Um amigo de minha irmã entoou ao violão sua canção predileta, Sentimental gravada pelo cantor Altemar Dutra. Junto com o violeiro cantamos juntos. Resolvi ler um texto que escrevera na noite anterior.

COMO UM PÁSSARO

Tal qual os pássaros que menino apreciavas nas campinas de Beberibe e que me ensinaste a me embevecer nas pradarias de Carpina, ou com igual gostar no quintal de nossa casa, no subúrbio de Casa Amarela.
Tanto quanto eles, gorjeaste o tempo que te foi dado a cantar, rir, trabalhar, amealhar amigos e admiradores de tua alma singela, paciente, tolerante, sensível e boa.
Com a mesma disciplina que dispensavas aos pássaros, cuidastes de tua família.
Não te iludias com gaiolas de ouro, rações esquisitas. Provias de água, luz, vegetais prediletos, sementes e areia branca. Fosse o capim tiririca para os curiós, ou as sementes de capim para os canários.
Ensinaste-me a fazer o enterro de alguns dos nossos pássaros, que morriam de idade ou de doença. Não vigorava à época a compreensão sobre o não aprisionamento dos animais. A única condição que me impunhas para possuí-los, era que assumisse a responsabilidade de cuidá-los sem um mínimo deslize, com dignidade e disciplina. Quantos pássaros não conheci através de ti?
Xexéu, Graúna, Ferreiro, Sabiá, Concri, Azulão, Guriatã, Papa-capim, Sanhaçu, Pintor, Periquito, Canário da terra, Canário do Império, Canário Belga, Caboclinho, Patativa Golada, Curió e tantos outros.
Aprendi a concertar gaiolas com o capim barba de bode, a acasalar a canária com o canário e depois aprisionar a canária e soltar o canário, para em seguida vê-lo recusar a liberdade para retornar ao convívio da amada. Eu dizia, agora vamos soltar a canária – e você respondia que não era a mesma coisa pois a fêmea era mais bandoleira e não voltaria.
Eu poderia dizer que você levou a vida simples como a de um pássaro. Que gostava de ser um pássaro brincalhão.
Hoje, como se algo estivesse sido combinado, fui te visitar e beijei a fronte magra de um doce pássaro de quase noventa anos, adormecido num leito de enfermidade que nos fez perder o contato cognitivo da palavra, da escuta, do olhar.
Há alguns anos tomastes a água da fonte do esquecimento. Há alguns anos perdemos os nossos registros convencionais de comunicação. Quando te beijei hoje imaginei dizer-te que descansasses se quisesses.
Como se houvéssemos combinado, algumas horas depois partiste com um único e suave suspiro; sem a agonia dos moribundos e com a leveza e plenitude de um vôo pássaro.
Ao sepultar este corpo que tanto nos uniu em vida, olho para a terra mãe que sinaliza com ternura essa incógnita aventura de ser estrume e vida para que outros pássaros gorjeiem em uma frondosa árvore. Doce mister será o nosso, de relembrar e merecer o canto de dignidade que deixaste gravado em nossa memória. Como um pássaro de paz.

── Antes do corpo ser conduzido à cova, cantamos o refrão de um frevo canção recifense que diz Quem tem saudade nunca está sozinho, tem o carinho da recordação... Meu pai era um folião. Ainda idoso comparecia nem que fosse para apreciar o carnaval de rua. Transmitira-nos o gosto desta festa que o recifense guarda no seu sangue.
Nós aplaudimos a emoção da morte de um homem bom, paciente, perseverante, alegre, digno e muito querido. Ao som do violão, seu corpo foi recoberto pelo barro avermelhado depositado sob a estreita vala. Findava a manhã de um sábado denso para todos nós. Findava um ciclo. Iniciavam-se as boas lembranças de um amor conquistado.
Waldir Pedrosa Amorim

26 Junho 2007

DEBUTANTES



















Ele possuía a chave do corpo dela e ela a do seu. Era reciprocidade louca e avassaladora. Era devorar e nutrir. Coexistia febre, ferida, tumefação, carne viva, sede, fome delírio, hemorragia. Imantados, possuíam o norte dos desejos, a bússola dos desvarios e o infinito dos sonhos carnais. Continham o pacto das animalescas e humanas emoções libidinais. Desdenhavam o céu, o entorno, o circunvizinho. Apenas sorviam terra, suor e emanações de corpos rotos.
Sem palavra proferir, proclamavam muito mais aos quatro ventos.
Assentaram o prazer, a volúpia, a gula e o apetite.
O sol seco, cáustico, não lhes molestaria. Nem a chuva, nem o vento, nem o frio.
O mundo, era desprezível redundância.
Concupiscentes, arfantes.
Sedutoramente belos e férteis.
Esbanjavam o insaciável furor dos amantes que debutam.



Waldir Pedrosa Amorim

02 Junho 2007

UM ENTARDECER ESPECIAL


Chuva grossa, chuvada, pé-d’água, logo que saía de João Pessoa rumo a Natal.
As paletas dos limpadores de pára-brisas em velocidade máxima a desbastar a água daquela torrente. Os faroletes acesos, lamparinas a sinalizar os quatro pontos do bólido afoito a chapinhar na lâmina d’água.
Prosseguíamos atentos ao acidentado caminho, ora um buraco ali, ora uma cratera acolá ─ uma ultrapassagem perigosa, uma linha férrea cruzando a estrada. Já bem próximo ao iminente perigo é que uma tradicional e desmoralizada placa de sinalização grita: Pare Olhe Escute ─ se eximindo de culpa, se houver a coincidência de dois móveis se interceptarem em um ponto médio. Nada pior do que ser atropelado pelo trem, nada tão provável ou improvável; quem sabe! É a roleta russa institucionalizada no cruzamento da linha férrea com a pista. As autoridades rodoviárias e ferroviárias nem ligam.
Estávamos no Rio Grande do Norte e a chuva já definhava.
Os canaviais pendoados a se perderem no horizonte. Crinas alvas de cavalos brancos, cavalos de pau. Bandeiras empedernidas. Flores de cana, franjas de melaço.Flechas a dizer: não é da cana a razão do solo exaurido, nem da cana o suor vertido pelos bóias frias, tampouco dela a razão do trabalho vil.
Os pendões diziam da cana madura, do doce do seu caldo, do cheiro agradável do seu mel de furo, mel de engenho, melaço, rapadura e da inebriante cachaça bem branquinha. Falavam da cana repartindo-se em coisas tantas e tão santas. Atenta aos prazeres: nas guloseimas açucaradas e na embriaguez.
Da cana servil se prestando a ser carburante e combustível. Da cana aquecendo as caldeiras com o seu bagaço ─ seu corpo moído, espremido, desidratado, a alimentar de álcool, os automóveis que infestam as ruas e as estradas.
Com a estiagem mantida, pusemos um disco que me presenteara naquela semana, uma amiga: D. Aracy. Um quinteto de cordas e uma sanfona interpretavam doze composições.
No lado direito da estrada o sol iniciava o ritual de declínio, por trás de nuvens cor de chumbo entremeadas por um cinza claro, um azulado, um amarelo ouro e por nuvens brancas. Imperioso, o sol parecia abrir uma fresta nas nuvens densas, ao tempo em que espalhava luz por detrás do horizonte.
Duas pequenas florestas de eucaliptos se postavam uma defronte à outra, nos dois lados da estrada. Ao longe, esta paisagem estava emocionantemente bela.
Os vidros do carro fechados proviam-nos um bom silêncio, numa acústica razoável, para apreciar uma execução musical incalculavelmente bela. Que presente imenso eu havia ganhado de D. Aracy, de Rucker e ...
Recordei páginas passadas vividas com gosto de mel.
Em Recife, tive a sorte de ouvir muitas vezes Luis Gonzaga tocando e cantando. Começou no meu curso primário, quando eu dançava quadrilha, no América Futebol Clube, na Estrada do Arraial. A atração era o Gonzagão cantando e tocando sua sanfona.
Já após tomar a cidade de João Pessoa como morada, fomos certa vez a Campina Grande para vê-lo tocar e dançamos ao som de sua sanfona. Nunca mais esquecemos destes momentos inéditos que a vida nos dá. Vendo-o tocar sentado e emagrecido fiquei triste, mas considerei o meu privilégio de estar ali.
Há pessoas que consideramos monstros sagrados.
Nunca hei também de esquecer as serestas em Casa Caiada, sob a peculiar execução do tão grande: Canhoto da Paraíba. ─ Um bar, pessoas que gostavam de cantar e de ouvir cantar, pessoas que levavam seus violões e seus cavaquinhos à espera calma de um tempinho para tocar com o grande Canhoto, homem simples e bonachão. Eram tempos de coisas simples e sem afetação.
Já adulto, ouvi um sujeito fantástico tocando o seu acordeom ─ Lá em cima, do alto da Sé, num barzinho estratégico chamado Cantinho da Sé, em Olinda, onde Batata era o garçom. Grande Batata que se imortalizou pelo Bloco de quarta feira de cinzas: Bacalhau do Batata.
Estava ali aquele imenso instrumentista paraibano, não por profissão, mas por deleite. Era um sujeito diferente, parecia incorporado à sanfona como irmãos siameses. Solfejava ao tocar e, emitia grunhidos que me pareciam um resmungar íntimo com seu acordeom ─ Arrancava sons espetaculares ─ meio instrumento, meio homem.
O instrumento se rendendo em metade, à outra metade do homem alvo, quase transparente, que também se rendia no acasalamento sonoro. Era intimidade demais entre ambos, para que eu entendesse tamanha grandiosidade.
Assim, eu ainda o vejo. Assim me parece Sivuca. O músico genial e mundialmente conhecido.
Havia um autógrafo dele naquele precioso disco que D. Aracy, mãe de Rucker , me presenteara. Os meus outros sentidos capitulavam frente ao deslumbramento dos meus ouvidos.
O ouvido, este invulgar aparelho que ganha dos olhos na capacidade da fidelidade e da atenção e que leal e atento procria sons e imagens.
Por ser albino e por ser ilustre, vi muita gente chamar numa determinada época em Recife os albinos de Sivucas.
Puxa, naquele fim de dia fora tudo tão perfeito.
Sivuca interpretando canções junto com o quinteto de cordas Uirapuru.
Nossos ouvidos se inundaram de afago na escuta de Choro de cordel, Em nome do amor, Sanhauá, Luz, Filhos da Lua, Chibanca no Uirapuru, Canção Piazzolada, Minha Luiza, Aquariana, Um tom para Jobin, Espreguiçando e a inesquecível Feira de Mangaio.
Fiquei refletindo.
Nossa cabeça de colonizados é fogo! Tem que comparar tudo com qualquer coisa de além Brasil. ─ Que pena que ainda assim sejamos. Por quanto tempo? Que pouco dure, assim desejo.
É incomparável, e é nosso.
Vale comprazer-se com uma tarde inusitada; dessas que não acontecem todos os dias e em todos os lugares ─ Vale ser contemporâneo de um estupendo músico como Sivuca. Valem as composições de Gloria Gadelha, do próprio Sivuca, de Rucker Bezerra e a maestria do Quinteto Uirapuru. E vale que tenhamos mais amor próprio e divulguemos, consumamos e prestigiemos nossos valores. Não é toda gente que os possui.
Não é todo dia que a paisagem e os que nos cercam se vestem para serem apreciados.
Quem olvida o que possui é pobre que dá pena e dó. Quem não promove estes valores é tão pequeno que dá raiva.


Waldir Pedrosa Amorim
João Pessoa, junho de 2004
Fonte da fotografia: www.mpbquetoca.blogger.com.br/

20 Maio 2007

O FURA FILAS

Nada pior do que você se encontrar numa fila aguardando a sua vez e de repetente surgir aquela figura conhecida, do fura fila, que é atendido sem necessitar aguardar sua vez. Você se indigna, reclama e ele impávido resolve seus problemas, desconhecendo os demais.
Se você reflete um pouco sobre o acontecido, vai se deparar com a figura de um outro personagem que é o que aquiesce à transgressão da norma, privilegiando por razões diversas a pessoa que assim age.
O fura fila, é um personagem comum no nosso cotidiano. Ele é tão comum que se tornou incorporado aos hábitos sociais, chegando ao absurdo de provocar uma resposta passiva e conivente dos que não desfrutam de tais privilégios. Estes privilégios são direitos válidos apenas para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria.
No nosso país, quem mais estimula a cultura dos fura filas são os maus políticos. Eles adoram subverter o direito em favor. Uma vez o direito tornado favor, este passa a se estabelecer como moeda de troca. Assim troca-se um favor por um voto, por um apoio etc.
Se nos dermos ao trabalho de imaginar a trajetória de um cidadão comum do início de sua vida ao período de sua maturidade, no tempo de sua aposentadoria iremos encontrar inúmeras situações em que este foi preterido em favor dos fura filas.
Com certeza, ao final do seu esforço não terá via de regra, a mesma resultante. Ou, se o tiver, terá sido às custas de um grande esforço e desgaste pessoal para atingir seus objetivos de uma forma digna.
Dizem que o troféu de qualquer conquista é o reconhecimento - isto com certeza é uma verdade insofismável. Contudo, uma vez atribuído um mérito indevido ao fura filas, jazem por terra as pessoas de bem.
Esta é mais uma etapa, senão a última, na trilha percorrida tanto pelos fura filas como por aqueles que não o são. Negociam-se valores e reconhecimentos, numa mesma inspiração e prerrogativa de furar filas.
A canção de valor é usurpada pela de menor qualidade, a ciência de valor é conspurcada pela servil, e assim por diante. Em todos os momentos isto é danoso. Rói o indivíduo, o coletivo, e com eles o tecido social. As medidas de grandeza se esgarçam. O sistema métrico fica ao abandono e ao arrepio.
Quando num modelo globalizado e competitivo aplicam-se estas regras, como poder concorrer em condições tão desiguais. Com que cara falar aos seus descendentes, que o subproduto do seu trabalho não atingiu o patamar desejado em virtude da existência de uma distribuição desigual do poder político e/ou econômico? Teremos que fundar uma nova ética baseada na lei da selva?
Valem as palavras de Rui Barbosa em O Triunfo das Nulidades ─ De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra,de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.
Retórica ou não, vale o conteúdo expresso neste trecho, não como incitação ao desânimo, mas como elemento crítico ao ânimo de perseguir uma ordem social mais justa.


Waldir Pedrosa Dias de Amorim

17 Março 2007

Como um pássaro.




Ao meu pai Wandelcy Dias de Amorim na data do seu falecimento.
(01-08-1917 - 16- 03-2007)

Tal qual os pássaros que menino apreciavas nas campinas de Beberibe e que me ensinaste a me embevecer nas pradarias de Carpina, ou com igual gostar no quintal de nossa casa, no subúrbio de Casa Amarela.
Tanto quanto eles, gorjeaste o tempo que te foi dado a cantar, rir, trabalhar, amealhar amigos e admiradores de tua alma singela, paciente, tolerante, sensível e boa.
Com a mesma disciplina que dispensavas aos pássaros, cuidaste de tua família.
Não te iludias com gaiolas de ouro, rações esquisitas. Provias de água, luz, vegetais prediletos, sementes e areia branca. Fosse o capim tiririca para os curiós, ou as sementes de capim para os canários.
Ensinaste-me a fazer o enterro de alguns dos nossos pássaros, que morriam de idade ou de doença. Não vigorava à época a compreensão sobre o não aprisionamento dos animais. A única condição que me impunhas para possuí-los, era que assumisse a responsabilidade de cuidá-los sem um mínimo deslize, com dignidade e disciplina. Quantos pássaros não conheci através de ti?
Xexéu, Graúna, Ferreiro, Sabiá, Concri, Azulão, Guriatã, Papa-capim, Sanhaçu, Pintor, Periquito, Canário da terra, Canário do Império, Canário Belga, Caboclinho, Patativa Golada, Curió e tantos outros.
Aprendi a consertar gaiolas com o capim barba-de-bode, a acasalar a canária com o canário e depois aprisionar a canária e soltar o canário, para em seguida vê-lo recusar a liberdade para retornar ao convívio da amada. Eu dizia, agora vamos soltar a canária – e você respondia que não era a mesma coisa pois a fêmea era mais bandoleira e não voltaria.
Eu poderia dizer que você levou a vida simples como a de um pássaro. Que gostava de ser um pássaro brincalhão.
Hoje, como se algo tivesse sido combinado, fui te visitar e beijei a fronte magra de um doce pássaro de quase noventa anos, adormecido num leito de enfermidade que nos fez perder o contato cognitivo da palavra, da escuta, do olhar.
Há alguns anos tomaste a água da fonte do esquecimento. Há alguns anos perdemos os nossos registros convencionais de comunicação. Quando te beijei hoje imaginei dizer-te que descansasses se quisesses.
Como se houvéssemos combinado, algumas horas depois partiste com um único e suave suspiro; sem a agonia dos moribundos e com a leveza e plenitude de um vôo pássaro.
Ao sepultar este corpo que tanto nos uniu em vida, olho para a terra mãe que sinaliza com ternura essa incógnita aventura de ser estrume e vida para que outros pássaros gorjeiem em uma frondosa árvore. Doce mister será o nosso, de relembrar e merecer o canto de dignidade que deixaste gravado em nossa memória. Como um pássaro de paz.


Waldir Pedrosa Amorim
Recife 16 de março de 2006

24 Fevereiro 2007

Ponte

Concebido em cidade de pontes quando nos cueiros, ele era tudo e não era ninguém. A mancha de luz indefinida o fizera berrar qual bezerro desmamado. Uma ponte o fez atado ao mundo num corredor que era boca e peito, peito e boca, saciedade e prazer, carência e desagrado.
Triangulou-se, criou nós e outros liames com extremidades diversas.
O clarão que amargava se arrefecia. A destemperada e única solidão perdia a têmpera, se emoldurava em laços. Já não carecia de pontes e corredores como d’antes.
O tempo o amalgamara em pilar. Nem as enchentes nem as vazantes desconstruiram-no.
Sólido era pináculo, montanha, cume.
Adoentara e retrocedera ao corredor escuro.
Sanado fora a guerra.
Deportado olhara o outro lado da minúscula ponte proibida de ultrapassar.
Exilado pombos correio lhe foram pontes.
Algemado, torturado, preso; fez pontes com as memórias.
Agonizante, pontes com a vida que ensaiara.

Waldir Pedrosa Amorim
Clube do Conto da Paraíba sábado, 24 de fevereiro de 2007.

15 Fevereiro 2007

MAIORIDADE PENAL


Quando criança e especialmente quando adolescente, desejei imensamente a maioridade, aquela que me faria desfrutar da liberdade desejada de ser adulto. Embora tenha tido uma infância comum e não tenha sido uma criança privada do convívio com outras crianças, rememoro com ternura a infância. Tinha três irmãos, era parte de uma família numerosa de primos, de outra família de vizinhos e de uma família de colegas de escola, também numerosas.
Mas queria ser gente grande. Gente grande que ia e vinha sem dar satisfações, que se trajava e pensava esquisitamente, que mandava nos seus pés, no horário de dormir, acordar,comer e brincar. Gente grande que traçava os desígnios das crianças e as protegia.
Nenhuma criança, que eu soubesse, mandava no mundo nem em casa. Além do que, sempre ouvia, com incontida inveja, expressões como: quando você crescer, quando você for adulto, quando você for pai ou mãe, quando você se formar...
Nas festas juninas, usava calça comprida e chapéu de adulto. Tem mais, meu pai me tisnava o rosto com um bigode semelhante ao seu, advindo da carbonização de uma rolha de cortiça, que se prestava a grafitar meus sonhos, transmutados no desejo de possuir ares de homem, dono do seu nariz.
Já pai, pude registrar momentos em que meus pequeninos filhos calçavam espontaneamente os meus sapatos, vestiam meu pijama, dando-se conta, não da aparência risível de um espantalhozinho, mas projetando a sonhada maioridade que os fez crescer, sem que se apercebessem, até se tornarem incluídos no rol dos que se tornam maiores de idade. Os três filhos que possuímos conquistaram algumas outras maioridades, como concluir um curso universitário, uma especialização, ingressar no mercado de trabalho, casar-se.
Não possuo netos, senão de filhos ficticiamente meus; ex-alunos, filhos dos filhos de meus amigos, filhos dos filhos de meus clientes, filhos dos filhos de minha imaginação em meus personagens, ou da minha alma quase maternal que se torna acumpliciada e emotiva com órfãos em barrigas de meninas púberes, que transitam pelas ruas das cidades brasileiras que percorro. Teria idade de ser avô de muitos meninos e meninas de rua, desde que deles me apercebi. E isso já faz muito tempo, eu ainda era menino.
Não são diferentes de ninguém, exceto nas oportunidades que sua pátria historicamente vem lhes negando. Correm soltos, limpam pára-brisas, desviam-se dos pára-choques, vendem balas, fazem malabarismos em fugazes apresentações circenses, esmolam um trocado nos estacionamentos. Engendram uma cena muito mais amena que a fotografia de seus barracos, seus cortiços, favelas, palafitas, invasões e morros. Nestes, nós não circulamos. Olhos infantes, distantes da perspectiva de sequer ter inveja, irrompem as maiores cidades sob olhares frios de adultos que transitam.
Sou do tempo dos que sorriam e tinham compaixão por estes olhares. Infelizmente assisto e torno-me cúmplice do tempo dos que fogem destes semblantes por insensibilidade congênita ou adquirida, por medo, por vergonha do seu espelho social. São regurgitações, transbordamento; são marés altas que exibem no asfalto uma halitose social que o passante preferiria não ver, e, no entanto, lhe é escancarada.
Com o tempo que já atravessei, digo que outrora já os encontrei em menor quantidade, menos andrajosos, mais pueris, menos temíveis, excepcionalmente drogados, mais ocupantes dos espaços da rua do que a serviço de adultos que os explorassem.
Auscultando apenas o meu tempo de memórias, essas crianças e adolescentes assemelham-se aos do tempo passado, exceto por se tornarem cada vez mais vítimas sociais dos descasos e por se avolumarem como párias de uma sociedade de adultos criminosos, irresponsáveis, que nunca se preocuparam com o seu entorno e com a sua infância.
Os adultos, coronéis de antanho, gestores de agora, legisladores, planejadores, ditadores, políticos eleitos ou eleitores, não passarão em qualquer avaliação rigorosa que lhes afira educação, conhecimento, probidade, consciência social e política, ética, capacidade administrativa, identidade e conhecimento dos problemas sociais. Muito menos estes entendem daquilo que se denomina desenvolvimento social com justiça. Não almejam uma sociedade com diversidade, lutando pela igualdade de direitos e condições básicas e fundamentais. Uma sociedade rumando com a educação como prática da liberdade, como denunciava Paulo Freire. Uma sociedade que se aprimora.
Não são todos, a bem da verdade, pois existem cidadãos sérios, políticos sérios, movimentos sociais leigos e religiosos que labutam em todo o mundo contra isto e que já produziram uma miríade de propostas e protestos contra o statu quo. Mas causa espécie o débil poder de indignação que somos capazes de esboçar, frente ao poder de manipulação do qual somos presa fácil.
A seca, como a doença, as endemias, a miséria, o analfabetismo, as imensas desigualdades, a educação, a cultura, sempre foram deságües de riquezas em projetos que cumularam os mais ricos de poder e perpetuidade. Seus fins nunca foram ou serão alcançados enquanto o cidadão não eleger políticos com prova de maioridade comprovada. A miopia do cidadão, auferida na prática do seu individualismo, é mancomunada com a esperteza e perversidade dos que propõem a imputação criminal de alguém de 16 anos e em condições de tão alto débito social como a que nos encontramos.
Um médico especialista necessita ser submetido a um vestibular complexo, cursar seis anos de universidade, dois a três anos de residência médica em clínica geral e dois a três anos ou mais na área específica, para obter o certificado de especialista. Não estou a falar do mestre ou do doutor. Um médico que, após a conclusão do seu curso deseje ser candidato a um cargo eletivo legislativo ou executivo, poderá fazê-lo e, terá alguma chance de se eleger com alguns meses de atendimento “filantrópico” e algum dinheiro. Com bem menos do que isso, poderá sair do anonimato para ser alçado a um cargo público eletivo, por herança política de seus familiares ou “padrinhos políticos”, juntamente com apoio e dinheiro para gastar na sua campanha eleitoral.
Isto se aplica a todo cidadão ou profissional com ou sem nível superior. É mais do que justo que qualquer cidadão possa se fazer representar. Defendo que este deva ser escolhido por possuir um cabedal político e uma prática política e social que seja meritória para ocupar esta função, encargo ou delegação social.
Não sou meritocrata, no senso acadêmico que lhe é imputado. As eleições presidenciais de 2006 demonstraram como é possível disputar uma carreira política sendo apenas médico residente ao iniciá-la (Geraldo Alkmim), e, como se pode consolidá-la sendo torneiro mecânico nas mesmas circunstâncias (Luís Inácio). As diferenças entre qualquer caso assemelhado passam, entre outras coisas, pelo que acadêmica e vulgarmente nos referimos como notório saber.
Muito além do saber político, há que se ter algo mais, como ética e compromisso com o fazer. O político tem de ser um bom e competente profissional da política, sem qualquer sentido pejorativo. Um político sério pressupõe um homem sério numa profissão bastante árdua.
A pretensa maioridade penal ora discutida e em vias de tornar-se emenda constitucional, assemelha-se aos habitantes de uma mansão, que descartam o lixo e os dejetos que geram, entornando-o ao redor de sua casa. Cada vez que este atinge os limites do seu muro, providenciam elevar o muro.
Consomem cifras elevadas de pesticidas, inseticidas, antibióticos, desinfetantes e desodorizantes do ar que respiram e das infecções que padecem. Ao dinheiro e poder, atribuem a aquisição da imunidade de seu corpo.
Continuaremos elevando o muro e saindo da garagem com carros climatizados, dedetizados e com blindagem à prova de bala? Até quando?

João Pessoa quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007.
Waldir Pedrosa Amorim
Poeta e médico

A Gaivota [alguns rascunhos] - Adaptação do texto de Anton Tchekov Interpretada pelo Piollin Grupo de Teatro

Estado de Graça
No dia onze de fevereiro, fui assistir ao espetáculo teatral A Gaivota [alguns rascunhos], nas novas instalações do Teatro Piollin, na antiga fábrica de rapadura do Engenho Bangüê Paul em João Pessoa. Vizinho à Bica.
O Grupo de Teatro Piollin, completa este ano 30 anos de existência e trabalho de grande significado para a cultura paraibana e nacional.
O teatro, como explicita o folder alusivo à peça, ainda encontra-se incompleto, sem camarins e equipamentos de luz. Nem dei conta disto, saí de lá em estado de graça.
Confesso até que me reconheci algo desmembrado assim como recomposto, em numerosas reflexões decorrentes do que vi. O enlevo e agonia que a arte proporciona transitam entre o sujeito e o objeto sob intensidade variada.
Sobre a peça teatral, de algumas coisas guardo certeza: o tempo passou e não me apercebi tal a sutileza com que um texto denso e bem interpretado nos trespassa.
A presença de todos os atores no set, do princípio ao final, mesmo quando ausentes da ação, me fez rememorar o vaso chinês de um poema de Elliot. Este expressa que um vaso chinês em silencio no canto de uma sala, provoca movimento. No teatro as falas e os silêncios possuem a mesma alma.
Sou entusiasta, mas pouco entendo de dramaturgia e de crítica, todavia este senão, me pareceu soberbo e imprescindível à inteireza do espetáculo. Já havia visto este recurso algumas vezes, porém ali o senti forte e grave.
A adaptação do texto de Tchekhov, que para alguns críticos pouco afeitos às adaptações dos clássicos é considerada terreno movediço, a mim mísero espectador, me pareceu plena. Suponho que o grupo teatral deva ter se identificado intensamente com objeto do texto, tal a força de interpretação despendida pelo conjunto.
Os elementos de cenografia, vestuário, coreografia e iluminação estavam no meu entendimento, franciscanamente em consonância com o texto advindo da estupenda interpretação e performance dos seus atores: Ana Luisa Camino, Buda Lira, Everaldo Pontes, Nanego Lira e Paulo Soares. A interpretação do grupo, como eu já experienciara no memorável Vau da Sarapalha, não me surpreendeu, mas me comoveu.
A cenografia e o espaço físico do teatro para esta peça, mais se assemelhariam a um texto literário enxuto e conciso, sem adjetivos desnecessários. Prevaleceram conteúdo e interpretação.
Enquanto público, único objetivo como narrador destas linhas, eu diria que pequenos detalhes como as pedras de gelo que são manuseadas e arremessadas, podendo chegar ao nosso imaginário como paredes frias que delimitam espaço e isolamento; juntamente com uma espécie de corda de delimitação dinâmicamente envolvendo os intérpretes, foram recursos trabalhados de modo esteticamente belo e simbolicamente forte.
Há muito mais aspectos que os que refiro, para por fim dizer que não se espere um complexo e incompreensível enredo. Eu saí julgando que narrar as histórias pessoais e interpessoais ali postas era de muito menor importância que os reflexos provocados em nós por esta encenação irrepreensível de um tema universal, sempre provisório e sempre perene, emanado de Tchekov: o tempo, a vida, as relações humanas. Talvez por isto tenha me sentido impelido a denunciar nestas linhas meu estado de graça.
Espero que o público paraibano e com certeza nacional, não deixe de desfrutar mais esta jóia rara, quando ao seu alcance.

Waldir Pedrosa Amorim
Poeta e médico
João Pessoa 15 de fevereiro de 2007

12 Janeiro 2007

A ARIDEZ DO MEIO DO MUNDO


Naquela pequena cidade no meio do mundo, de características duras como as pedras e o piçarro árido de seu solo, do cacto carnudo e da caatinga menos rude que em outras plagas, a vida da púbere Rosinha florava. Florescia junto aos botões de seus pequenos seios, com a rala penugem do seu púbis e a primeira menstruação que lhe conferia competência de mulher pronta à procriação e ao sexo.Tez morena, pele aveludada, ancas largas, coxas torneadas, joelhos recobertos pela adiposidade mínima e necessária para encobrir harmoniosamente a ossatura daquela dobradiça, que prosseguia abaixo em pernas simetricamente arredondadas, panturrilhas boleadas com arcos suaves a terminarem em proporcionalidade com os tornozelos, tendo por terminação harmoniosa os pequenos pés.Estes configuravam algumas características de sua posição social, a começar por diferir dos pés das mulheres abastadas, que mesmo não tendo a formosura e o viço que possuía Rosinha, os tinham tratados com esmero, amaciados pelas pedicuras. Os delas, avessos ao chão, solas finas e bem cuidadas, pés de princesas habituados às pelicas e aos saltos altos. Os da menina-moça eram acostumados à nudez destemida e pisavam sem medo o pó de calcário do chão e a virgindade do solo quente ou frio. Eles tinham a intimidade antiga entre pedregulho e a queratina abundante de suas plantas. Não eram fidalgos comportados em sapatos acolchoados e por isso mesmo, não eram compridos e lânguidos, senão pequenos e espalhados. Roliços e curtos.Os olhos vivos cor de mel ou de rapadura, viam a vida com alegria e desbravamento. Os cabelos cacheados lembravam o mel escuro, mel de furo, mel de engenho, atingiam a sua cintura que era recortada como um pilão. Ícones esvoaçantes, eram tratados com esmero e lavados com sabão de coco e água de raspa de juá. Jamais haviam sido cortados, desde que sua mãe fizera-a pagar uma promessa por ter sobrevivido de uma pneumonia dupla em idade tenra. Eram eram flâmulas de liberdade, tal e qual o capinzal abanado pelo vento frio das noites de São João.Bento, jovem esguio como um caniço, mimetizava a vara que aguilhoava os bois usados na tração dos carros dos engenhos e fazendas. Franzino, sem excessos de adiposidade, músculos bem definidos pelo exercício diário na fazenda onde trabalhava, ora cuidando do gado, ora cortando capim, ora limpando os estábulos, ora correndo a cavalo.Era o homem de confiança do patrão e pau para toda obra. Calmo, voz arrastada e de pouca conversa. Criado desde menino no mesmo povoado de Rosinha, se embeiçou por ela e com ela se casou. Fora amor de arrancar toco nas noites e madrugadas de recém casados. E Rosinha queria Bento todas as horas do dia. Rosinha gostava de ser possuída por Bento, ficar e ser pertencida. Quanto mais, melhor! É bom que dói, ela dizia para Bento.Rosinha era livre pra posse, enquanto Bento dono tinha. Tinha o dono do seu sono, do seu suor e agonia. Tinha o dono do seu soldo que sustentava Rosinha. E quanto mais se esforçava mais seu patrão lhe exigia. Até mesmo parecia que seu patrão andava com ciúmes de Rosinha. Bento não agüentou a barra e fraquejou com Rosinha. Dormia nas dependências da fazenda várias noites por semana. Voltava pra casa amuado e cabisbaixo e não transava com Rosinha. Bento, dizia ela, depois que você me acostumou eu não consigo viver sem transar com você nem um dia. Eu já estou ficando doida. E Bento nem respondia.Foram meses jejuando que passaram Bento e Rosinha. E o patrão sem jejum, com apetite voraz, promoveu Bento ao cargo de capataz. E Bento pensava no patrão e mal pensava em Rosinha. Esta confidenciava pras amigas que o que mais gostava na vida era de fazer sexo, mesmo que fosse sem Bento, pensava que gostaria. E um dia se entregou na primeira oportunidade na mesma cama de Bento.Foram meses de loucura e de medo, daquele sexo proibido. Parecia mesmo que a sina tinha dado a Rosinha a sexualidade fogosa de uma ninfeta com o medo misturado ao gosto, o gosto misturado à necessidade, a necessidade misturada com prazer ou outra coisa sem nome, tal e qual a carência daquele chão seco que rachava quando não chovia.E veio-lhe a idéia de liberdade, de sentir de novo os pés descalços e os cabelos esvoaçantes como flâmulas ao vento. E a vontade de Bento que não aparecia há quinze dias.Lavou seus cabelos com água de juá e sabão de coco e aguardou Bento por seis dias. Negou-se aos folguedos da alcova com o forasteiro que a perseguia até ceder-lhe a mais uma noite de fogueira incendiada, quando Bento rebenta casa a dentro e o amante foge lívido pela porta da cozinha. Despida de tudo e vestida de coragem, enfrenta Bento lhe dizendo que estava fazendo o que ele queria que fizesse ao abandoná-la destituída do amor que lhe ensinara a provar pela primeira vez.Uma peixeira lhe desfigura o corpo e arrebata-lhe a vida que tomba rubra no chão de barro batido. Bento preso e de mãos ensangüentadas e calejosas é no outro dia solto pelo patrão que continua agora mais do que nunca sendo o seu dono. E a aridez prossegue naquela cidade no meio do mundo. Bento foi convencido que Rosinha era apenas uma mulher morredeira e o seu dono alguém a quem ele devia para sempre a sua liberdade.
Waldir Pedrosa Amorim

06 Janeiro 2007

SONHOS

O que seriam sonhos para Nadir?
Nada. Sementes a esmo.
E o que era sua história de viver?
Aparentemente nada, numa visão dela própria.
Mesmo renitente, o olhar sobre seu passado lhe trazia unicamente a sensação de vaso oco, imagem desfocada.
Viver não lhe interessava, nem muito nem pouco. O fosso entre seu surgimento no mundo e o agora, era contemporâneo do tempo debulhador da sua carne e riso. O tempo lhe propiciara a sisudez e a apatia temática que esposava no semblante.
Afinal de contas, não tinha débitos ou créditos com a existência. Ninguém poderia afirmar que desempenhasse um só lugarzinho na sua acanhada e despercebida vida. Aquele espaço desqualificado e indesejado que ocupava na calçada, a suplicar esmolas, tinha sido transfigurado em assento de réu.
Jornais, televisão e rádio já anunciavam que não se deve esmolar aos pedintes de rua; potencialmente de alta periculosidade, habituados a auferir um ganho secundário com a piedade proposital e andrajosa.
Já fora alardeado que muitos eram profissionais, viviam da indústria da esmola. Além do que, estes comportamentos paternalistas, assistencialistas, é que arrefeciam as contradições que conduzem a mudanças.
Enfim, párias, lúmpens, e estorvos sociais era o que de fato eram.
Sonhos? Melhor não tê-los. Nenhum, refletia Nadir.
A noite era gélida, indiferente, sem luar.
Nadir fora incinerada enquanto dormia no passeio público.


Waldir Pedrosa Amorim
Clube do Conto da Paraíba
Sábado, 6 de janeiro de 2007
Tema Sonhos

05 Dezembro 2006

OS SONS DAS RUAS E DAS CIDADES

As cidades possuem bocas, ouvidos, exalam odores.
As cidades são corpos, e não sabe o que perde quem não perscruta com insistência os mistérios de sua alma. Cidade se identifica com tato, visão, audição, paladar e olfato.
As cidades possuem cheiro próprio, são vivas e sensíveis aos tratos que lhes dêem seus habitantes, seus passantes e aqueles que as conduzem.
Misteriosas, caprichosas em seus afetos; para conhecê-las e entendê-las há que serem percorridos os meandros, amado os becos, botecos, sua gente transeunte ou aportada. É imperioso discernir o silêncio das horas, os sons, ruídos e antes de tudo, memorizar os seus aromas.
Há que se caminhar por suas veredas e sorver os seus acepipes.
Há que se fundar uma concepção única, um conceito inteiro, recolhido dos sete buracos da cabeça, prosseguindo pela epiderme que capta e tateia.
Há que se entregar às sensações que emanam do calor, sabor, da cor, às ondas sonoras e algo mais.
Não se toma uma cidade apenas pelos monumentos, lojas, grandes restaurantes; senão pelos seus bares, botecos, becos, ritmos, danças e pela conversa amena e desinteressada com os seus habitantes. Há uma inaudita riqueza pelos aglomerados humanos, pelas suas praças e jardins.
Onde um rio, uma praia, uma lagoa, um oceano, uma queda d’água; desfrute e navegue, mesmo que flua conduzido pela imaginação e fantasia.
Onde uma montanha, escale ou aprecie. As montanhas parecem ser criadas para a reflexão sobre o alto, o divino, o imponderável. Mesmo os agnósticos e ateus rezamos.
Ore, agradeça ao mistério da vida pelo persistente desejo que acolhemos, os do bem, de um dia reconhecermos a todos como irmãos. Aprecie os templos, visite-os, parecerão tão mais belos quanto imponentes, suntuosos. Observe como são dissidentes entre si e não se arrepie.
Ore em céu aberto, diante da natureza haverá convergência. Caso haja apreendido o sentido do sentimento de compaixão, cante ou grite alto e suavemente, até exalar todo o ar de uma inspiração. Ouça o eco e agradeça.
Onde um antigo farol, visite-o. Onde um parque, uma floresta; desvende-a, ouça os pássaros e não esqueça de apreciar as térmitas e as formigas. Nunca olvide uma borboleta, um escaravelho ou um beija flor.
Uma cidade conquista quando se vai à feira, ao mercado público, ao mercado de pulgas, ao antiquário, ao vendedor ambulante, ou ao artesanato mais simples. Torna-se possuída quando se é passageiro anônimo de seus meios de transportes urbanos mais comezinhos.
É necessário ser aquela ou aquele que vai a pé.
Ser pedestre, andarilho, caminhante é gosto maior e honraria auferida na intimidade com as esquinas, vielas, travessas, vilas, ladeiras, calçadas, trilhas de terra e paralelepípedos de um lugarejo.
Uma cidade se aprecia e se degusta, sentado a ermo apreciando os passantes, tragando a sua bebida e comendo a sua comida mais representativa e banal.
Quando algum dia distante, for dado apenas recordar, ou deseje retornar por sentir saudade e, de olhos fechados sentir o perfume, os sons, os timbres, as cores, os sabores; encontrar-se-á dentro de um filme tão completo e pessoal, quanto a capacidade de enxergar os retalhos encantadores e comoventes de uma cidade.

Waldir Pedrosa Amorim
João Pessoa, 5 de dezembro de 2006

28 Novembro 2006

DOIS AMIGOS

Vi num antigo amigo meu desvanecer a esperança, entrando numa depressão que se aprofundou com o alcoolismo e que terminou levando-o à morte num acidente automobilístico.
Era um homem bom, muito exigente consigo mesmo e com os demais, dono de uma invejável cultura, líder nato, professor exemplar.
Nascido numa família protestante, havia se tornado marxista na juventude. Era um teórico do movimento comunista e passou a ser também um indivíduo que levou às últimas conseqüências sua ideologia à prática do seu dia a dia. Havia participado das grandes lutas do movimento estudantil em 1968 e sua militância política se estendeu à universidade enquanto professor.
Era prazeroso conversar com ele, pela profundidade e convicção como expressava seu conhecimento do materialismo histórico e dialético. Homem de muita leitura, andava nos tempos derradeiros como os que eram denominados de esquerda festiva: um livro debaixo do braço sentado num bar varando a noite em mesas de discussão. O álcool o tornou necessitado de maiores quantidades para que exercesse efeito sobre a tristeza, a melancolia e a depressão.
Teve alguns casamentos e separou-se de todas as mulheres com quem se casou. Muito admirado pelo seu magnetismo pessoal e pela pessoa boa que era, manteve relacionamentos amorosos irregulares e de curta duração com muitas mulheres que dele se enamoraram. Aparentemente era uma pessoa insatisfeita.
Uma das grandes perdas da sua vida foi assistir ao desmoronamento dos países ditos socialistas. Era algo que não conseguia admitir e metabolizar, tendo passado a ser antidialético e pouco científico nesta questão.
Ele, que havia sempre sonhado e investido no avanço para uma sociedade menos desigual onde se superariam os problemas da luta de classes. Ele, que como ninguém sofrera perseguição política, prisão nos anos da ditadura. Ele, que de cor sabia as concepções do socialismo utópico e científico.
Mas o enfraquecimento do bloco comunista não se refletia em si somente, como também arrefecera o entusiasmo dos companheiros de luta, de discussão, de militância política. Era como se de repente sua alma escoasse líquida pelo ralo das sarjetas.
Para um número maior de pessoas do que imaginamos, a perda do ideal se reveste de um luto monumental, maior tantas vezes que perdas materiais ou das pessoas a quem se ama. Os ideais e os idealismos parecem nascer e crescer com avassaladora força capaz de conquistas imensas e também com um potencial de inércia e de autodestruição assemelhados.
Pessoas existem que, ao contrário, são de uma capacidade invejável de reciclar as perdas e torná-las forças motrizes fantásticas a remontar a vida e a caminhada do viver.
Viver dá trabalho, é duro e por vezes não se encontra reconhecimento na vida, que nem sempre é justa como se espera.
Um outro amigo meu, médico, militante de esquerda, sofreu o pão que o diabo amassou nas mãos da repressão. Foi cassado, submetido à tortura, sua e de sua esposa, foi preso político por vários anos.
Um dia, ao adentrar o campus da Universidade Federal de Pernambuco, encontrei-o sentado no pátio da Faculdade de Medicina sozinho, em um banco de pedra. Fomos envolvidos pela emoção muito forte do reencontro e meus olhos marejaram como os dele, contudo lembro até hoje do seu sorriso largo e calmo. Havia sido solto há poucos dias, ali estava para saber sua situação estudantil e continuar o curso médico.
Homem de uma inteireza sem par, ainda sofreu difamações de seus antigos torturadores. Manteve-se monolítico, íntegro e fiel ao sentido basilar do seu ideal que era o de ser agente de transformação e de progresso do mundo no qual estava inserido.
Tornou-se um bom clínico que a medicina não perdeu para política porque este deu continuidade nesta aos melhores ditames do raciocínio clínico aplicado com devoção hipocrática à ciência política.
Hoje é um dos maiores políticos que conheço, não apenas pela sua capacidade de articulação, como sua clareza em identificar caminhos a serem facilitados, por onde trafeguem melhores condições de vida e progresso para sua gente. Tem uma família simples, serena e coesa, que consigo reparte conquistas ou revezes. Mantém o sorriso largo e acolhedor dos tempos em que o conheci.
Aqui não os comparo, aqui os equilibro dentro do meu peito com carinho e respeito; a me ensinarem a natureza e as circunstâncias diversas de que são constituídas as vidas e as pessoas. Ambos, idealistas do meu tempo.

Quinta-feira, 14 de abril de 2005.

Waldir Pedrosa Amorim

03 Novembro 2006

O ZELO AMOROSO - CIÚME



Otelo mata Desdêmona (desenho de Josiah Baydell, século XVIII

Ela era imensa, enorme, onipresente e ele era o seu oposto.
Conservaram um ciúme zeloso a vida inteira. Poder-se-ia dizer que era um zelumen, origem latina do vocábulo ciúme, que o aproxima de zelo e o distancia de inveja.
Eis que um dia ela adoece e sabe que tem os dias contados. Esconde dele esta realidade e, se esforça para não lhe demonstrar sequer aquele ciúme bem dosado.
Ele não percebe que ela definha, mas sente falta do seu zelumen para com ele. Acha-a desinteressada, apática, fria; haverá alguém na vida dela, se questiona? Preferia morrer a perdê-la.
A ela não restava conjecturas, só certeza.
A realidade os transmutara e os emudecera. Ambos ensimesmados sentiam inveja de alguns dias de atrás, dias do seu próprio passado. Dir-se-ia que a inveja neles, mais se aderia à nostalgia que ao mau olhado.
A bem da verdade, nada haverá de ser dito, senão presumido. Ele morreu três meses após ela. Presume-se por ausência daquele zelo amoroso e por banzo.



Waldir Pedrosa Amorim

Clube do Conto da PB - sábado 4 de novembro de 2006 Tema: Ciúme.



30 Outubro 2006

POR QUE PRANTEAMOS QUEM NÃO AMAMOS

(escrito em junho de 2004)
Fui pego de surpresa com a notícia do falecimento do octogenário político brasileiro, ex-governador do Rio Grande do Sul e por duas vezes do Rio de Janeiro Leonel Brizola.
A falta de tempo me fez ouvir apenas o noticiário radiofônico, informando que após Porto Alegre, onde seria velado ao deixar o Rio de Janeiro, o seu corpo seria transladado a São Borja, no Rio Grande do Sul, sua terra natal.
Este homem, a quem não admirava tanto, pela sua aparente falta de coerência, pela sua empedernida postura oposicionista contra tantos; fosse à direita, ao centro ou à esquerda, sempre me pareceu um inquieto a procura de um estilo que lhe fosse consagrador. Aparentemente morreu sem atingi-lo. Nós não saberemos.
Apesar de insatisfeito, resistiu em momentos cruciais da política nacional, emprestou apoio à democracia em muitos outros.
Ao tempo em que eu refletia, a emoção me agarrou em um aspecto.
Seja a vida deste homem, sejam as de outros homens públicos como de um Barbosa Lima Sobrinho, de um Luis Carlos Prestes de um João Amazonas como exemplos; quando estiradas, como numa estrada, como se fora uma passadeira do tempo. Projetam-se oitenta e tantos anos de vida e há algo mais que entender. Haveremos que refletir sobre suas vivências, oportunidades e desencantos.
A profissão política admite muitos atrasos, muita manipulação, muitas verdades e muitas mentiras.
Admite muita insensibilidade, muito desrespeito à comunidade. Talvez a ela se aplique o aforismo de que a metade destes julguem-se deuses, e a outra metade tenha a certeza que o são. Quanto mais pobres as comunidades humanas, mais dependentes de favores, de capacidade crítica, para expurgar aos poucos pelo voto, os indivíduos amadores e não comprometidos com o avanço social e o bem estar maior para todos. Uma das armas mais mortíferas para o mundo é a do político desonesto, descomprometido. A melhoria dos indicadores sociais, da paz e do progresso também demanda uma boa prática política.
Ser minoria consciente, ser contra o estabelecido, ser resistente é tarefa difícil.
É difícil conviver entre serpentes, sem se tornar uma delas.
É custoso ser contraponto, pedra no sapato, minoria esclarecida.
Alguns o conseguem quando se põem a serviço de uma idéia e depõem da vantagem pessoal.
Outros, esquecem que a natureza ética dos meios é por si mesma, um processo por onde se constrói a finalidade que é o bem comum.
Quantos, impacientes e cansados de serem tratados por tolos se tornam verdadeiros camaleões na busca de uma identidade.
Lamentavelmente é laborioso e difícil manter a integridade, a coerência de princípios e ter a verdade por atitude numa sociedade desacostumada a parâmetros éticos de justiça Os princípios basilares de justiça e probidade não têm vez onde a impunidade e a lei da vantagem pessoal é regra.
A cena política perde um militante à moda antiga. Controverso e habilidoso. Com vários outros atributos que a maioria e eu próprio desconhecemos. Com ele vão heranças de um populismo peculiar. Com ele um pouco das exéquias de um caudilho. Foi herdeiro do trabalhismo e da dinastia de Vargas. Outro personagem controverso da historia brasileira.
Nem um santo, nem um herói, mas com atitudes corajosas ao longo da sua trajetória. Personalista, centralizador, insistente, indomável até o fim.
Como isto não é pouco, nem desprezível, na sociedade que vivemos, eu o pranteio.
Pranteio um ícone da política brasileira. Uma política que carece de muitos anos de exercício para ser aprendida como profissão do bem comum.

Waldir Pedrosa Amorim - Escrito em Junho de 2004

23 Outubro 2006

Irreversível Eclipse

O que havia lhe sucedido fora um eclipse. Talvez um dia seus olhos se cerrassem, seus ouvidos não escutassem, seus pelos não eriçassem diante do frio ou do medo.
Contudo era inimaginável que houvesse se desplugado do mundo após aquela sobredose de cocaína e vodca, carregando consigo tantas doses de emoção não compartidas.


Waldir Pedrosa Amorim
sábado, 21 de outubro de 2006
Clube do Conto da Paraíba
Tema :Eclipse

A Tela de Penélope




Aquele barulho no ouvido mais se assemelhava a um bip tênue e metálico que logo lhe transmutaria os sentidos e exigiria muita concentração. Depois adviriam as imagens reconstruídas em seu cérebro que eram projetadas na mente, como se principiassem nos olhos.
Ela se elevara cuidadosamente e saíra do túnel onde se deitara há alguns instantes.
Era domingo, dia claro e manhã sossegada. As cores lá de fora palpitavam em tons alvos e azulados e por esta razão tivera o impulso da produção pictórica que tanto a acalmava.
Aquele trabalho que empreendera há seis meses, já se tornara uma verdadeira arte inacabada. Muito se esforçara para não utilizar seu genial buscador sensitivo. Tentara consubstanciar sua obra com os armarinhos de sua mente.
Mas... Existem momentos em que as gavetas do armário próprio se encontram obstruídas. Relutou bastante, muito mesmo; e o sol da manhã, as cores do dia, o feixe de luzes monocromáticas sobre sua retina, não aquiesceram em provocar a produção de menos melatonina e mais cortisol. Talvez seu ritmo circadiano conspirasse contra as manhãs, que teimavam em se manterem apoucadas de inspiração e mais sonolentas.
Quem sabe, houvesse fantasiado em demasia sua construção. Quem sabe, sua exigência de um construtivismo arcaico e primevo não a reprimisse diante da fausta utilização pelos demais artistas, em consultar os arquivos do inconsciente de modo tão ágil, fácil e banal. Ninguém em sua época se debatia com insigths individuais, isto era coisa do passado.
Por esta razão se dera a permissão de deitar em sua máquina e acessar o inumerável mundo de registros do inconsciente catalogados por vivências de pessoas do mundo inteiro.
Resolvera transportar-se ao inverso daquela manhã silente e clara, contudo, estéril em sua alma. Afinal, vivem os artistas dos contrapontos e antagonismos.
Na fabulosa máquina teclara: barulho e obscuridade.
Agora diante do cavalete e da tela, juntava e revolvia os tons de pigmentos necessários a dar continuidade à sua obra.
Paleta, pincéis e espátulas ardorosamente comandadas pelos seus anseios e pelos dos outros, governavam a mão, fiel à mente incitada.
Penélope encontrara o seu Ulisses nos arquivos do inconsciente.


Waldir Pedrosa Amorim quinta-feira, 12 de outubro de 2006.
Clube do Conto da Paraíba sábado, 14 de outubro de 2006-10-12.
Tema: Barulho

13 Outubro 2006

Festa

Para ele não havia meio termo, ou era festinha ou festão!
É óbvio que não gostava de diminutivos, afinal todos diziam que era exagerado em tudo o que fazia: gosto extravagante, hábitos desmedidos, sentimentos impulsivos, gestos grandiloqüentes e exagerados. Jamais poderia caber-lhe: mesquinhez, parcimônia, comedimento, sensatez, se é que porventura existisse algo sensato em se tratando de uma comemoração sem motivo explícito. Qual a razão que o conduzia a querer comemorar justo naquele dia, da independência do país?
Era feriado, e, logo depois sexta feira, dia imprensado. Seguiam-se o sábado e o domingo. Puxa vida! Tanto tempo, para debulhar em puro ócio e alforria. Afinal de contas era um escravo, trezentos e sessenta e cinco dias do ano, excetuados os dias santos, feriados e férias dominicais. Escravo sim, da azáfama diária que cabe aos que têm que matar todo dia um leão, a fim de manterem a renitente ocupação do seu espaço no mundo dos sobreviventes.
Eu mereço, disse de si a si mesmo!
Telefone em punho, tocou a chamar os amigos, aderentes, parentes e coisa e tal, já pelas oito da matina: ─ olha, hoje é feriado e resolvi fazer uma festa aqui em casa, cheguem lá pelas dez horas, a hora que chegarem está bom.
Comprou cerveja, pôs gelo no isopor, comprou caranguejo, siri, lingüiça, coração de galinha, ovo de codorna, uns galetos assados na rua, seis garrafas de aguardente, mandou fazer um três cuscuz dos grandes, botou no fogo uma fava com tripas e carne de sol, aprontou uma farofa dágua com coentro, cebolinha e cebola.
Tudo pronto! As bebidas bem geladas a esperar seus convidados para a farra comemorativa do não seio por que, e de não seio o que. Excitado, aguardava sorridente sorvendo a décima latinha de cerveja que como combustível o acelerava em cada afazer que cometia. De repente, lembrou da seleção musical e separou uns discos de Anísio Silva, Calos Galhardo, Ângela Maria, Carmem Costa, Nelson Gonçalves, Roberto Carlos, Expedito Baracho, Claudionor Germano, Capiba, Núbia Lafaiete, Altemar Dutra, Vicente Celestino, Ataulfo Alves, Maria Parísio, Carlos Gardel, Dircinha Batista, e por aí saiu escolhendo as canções para tocar.
Cada faixa do bolachão de vinil uma cerveja, cada música uma recordação, cada emoção revivida um trago de cachaça, cada talagada uma lágrima nos olhos.
A saudade dos amores perdidos, a lembrança do pai que morrera, a desilusão dos casos já tidos, a efemeridade das juras, a trivialidade da vida, a mesmice do cotidiano, a imparcialidade do tempo que tingia seus cabelos, a angústia das horas, o tempo apoucado que varria apressado seus planos.
Mais um gole e a campainha blinblava.
Por trás dela os amigos.
Dentro deles a algazarra e a alegria.
Neles o elo terno do não estar sozinho.
E a festa começou!

Waldir Pedrosa Amorim
Clube do Conto da Paraíba 09/09/06 quinta-feira, 7 de setembro de 2006

O Abajur


O abajur repousava aceso, próximo ao balcão do caixa da loja de artesanato. Interessado num par de brincos de capim dourado clamando na vitrine, não se deu conta do abajur.
Os olhos incendiados pelas dezenas de coisas coloridas resvalaram próximos, mas cederam lugar a um monte de máscaras em miniatura. Cabeças multicoloridas de bois, que caberiam como dedal num dedo, pedem atenção. Papel machê: papel com água, cola e óleo de linhaça, amassados até serem pasta modelável. Escultura com a leveza da casca de ovo.
Sem resistir separou seis. Seis cores diferentes o acompanharam.
Réplicas miúdas das máscaras usadas nas cavalhadas de Pirinópolis em Goiás, explica a vendedora consultando o catálogo de artes populares.
O mimo da cortina de contas de vidro, sementes, pedacinhos de espelho e escamas gigantes de um peixe desconhecido.
A menina Maria Antônia brincava com objetos da loja: tiquinho de gente! Acocorou-se para trocar com ela um diálogo de igual para igual.
As folhas desidratadas com seus veios, seu esqueleto à mostra, sedutoras, lembrando aquelas que se descarnavam com o tempo entre as folhas de um livro, avisando onde havia que recomeçar.
O anjinho de bruços, rechonchudo e inocente. A argila, os pigmentos e a imaginação de Nenê Cavalcante que paria imagens ingênuas, sempre gordas e nostálgicas em esculturas tão lindas. A água e a argila, forma crua da criatura.
O fogo, o forno, o pigmento esmaecido qual bonina disfarçada, talvez magenta desbotada, cor do boa-noite lilás, florzinha sorridente, sem queixumes para viver e florir.
O tom pálido, quase anêmico na face das criaturas de Nenê, com o ruge nas bochechas, idêntico ao colocado com esponja no toucador.
Clama o abajur por ser notado e a mulher se adianta: que lindo abajur! A exclamação pontua o olhar absorto e desencadeia paixão. O cilindro de bandeirinhas vazadas, com uma luz interior acesa se estabelece.
─ Bandeirinhas, só as vi usadas em festa, alegria e nas telas sutis de Volpi!
O abajur impetuoso arrebita-lhe o nariz e de soslaio pede para ser levado. Encantadas nas memórias as bandeirinhas se atiçam.
Olhos ingênuos de contentamento, sem pestanejar levam consigo as bandeirinhas das ruas, no abajur artesanal que queria ser notado.

Waldir Pedrosa Amorim 10/9/2006

O Apartamento

Moravam numa rua tranqüila há mais de quarenta anos. Nela viram crescer os filhos e os netos. Pagavam aluguel, depois conseguiram comprar a casa onde viviam. Adquirindo aquele cantinho, não apenas realizavam o sonho da casa própria, mas tomavam posse de um ninho que vinham confeccionando pouco a pouco.
O quintal era grande e nele haviam plantado bananeiras, um pé de carambola, pitangueira, pitombeira, mangueira, sem falar numa imensa cajazeira, de fruto agridoce, pele macia e tronco rude.
O jardim era o mimo da mulher que o prolongava pelos alpendres cheios de plantas e de flores. O terreiro era continuação de sua alma masculina, com suas hortas, um poço que ele próprio cavara, um banheiro sem teto, um enorme chuveiro, uma caixa d’água e a casinha de bombear a água do poço. Havia mais: um cachorro vira-lata que atendia por Peri, um viveiro cheio de aves, uma infinidade de gaiolas com pássaros apanhados no quintal; vários casais de canários da terra, um galinheiro e uma galinha assanhada alcunhada por Floriza. Um varal de arame, com roupas embandeiradas, um quarador de cimento, um quarto com ferramentas e um torno. Uma antena captando as ondas para um radioamador e telegrafia. Um quarto externo contendo além do rádio, outro radinho de pilhas; uma prateleira cheia de vidros com alimentos para os pássaros, duas ou três garrafas de aguardente, um cálice, quatro copinhos de tomar cachaça, um molho de capim barba-de-bode para consertar gaiolas, uma rede, uma estante com alguns livros, uma máquina de escrever, um espelho para barbear, um pincel, uma cuia, um tubo de creme de barbear Bozanno, um vidro de Aqua Velva, um pote de Brylcreem, um vidro de Loção Juvênia, um vidro de Leite de Rosas, um sabonete Eucalol, um tubo de Povilho Antisséptico Granado, um vidro de Elixir Sanativo, uma pedra-ume, uma pedra-pomes, uma escrivaninha, uma cadeira de balanço e um azulejo na parede com o seu prefixo: PY7DA.
Anualmente, uma reforma que ele mesmo conduzia: uma parede, um alpendre, uma grade, um prolongamento da antena, uma garagem, uma casinha para o gás, mais um ponto da água do poço, um canil.
Diariamente saía bem cedo a comprar pão, carne, leite e outras encomendas da mulher para o consumo do dia. Encontrava os amigos, os vizinhos, e a freguesia das manhãs. Aos sábados ou domingos recebia no quarto externo alguns amigos para o bate-papo; entre uma ou outra cachacinha, petiscos, complementados por sinais sonoros, ora de palavras ora de cifras ao rádio ou à telegrafia.
Era caseiro, de hábitos domésticos. Qual um felino, se afeiçoava ao ambiente sem a volúpia nômade dos ciganos.
Andava lento, exibia sinais da idade e por três vezes foi assaltado quando retornava das compras matinais.
Zelosos, seus filhos e sua mulher convenceram-no por livre e espontânea imposição a ir morar num apartamento.
Não desencaixotou o rádio amador, doou os pássaros, silenciou a voz, emudeceu o coração e depois que a alma acompanhou-o em sua mímica, tornando-o um artefato de quem era, não tremeu, não esperneou, preferiu entre o mal de Parkinson e o Alzheimer, esquecer a cachaça a derramá-la no chão. Demenciou e embora vivo, não mais retornou ao mundo.

Waldir Pedrosa Amorim
sexta-feira, 15 de setembro de 2006
Clube do Conto da Paraíba.sábado, 16 de setembro de 2006
TEMA:Apartamento.

A Ótica

Serafim era casado com Delfina de pouco. Filha única, Delfina fora mimada não só por seus pais que lhe tinham um afeto e um cuidado muito especial, como também por sua antiga babá, Josefa. Esta lhe despendia um amor maternal, passando a morar consigo quando casou. Delfina fora educada com esmero, porém sem afetações. Estudara nos melhores colégios da cidade e finalmente concluira o seu curso de arquitetura com distinção e louvor.
Não deixando de ser uma conhecedora exímia das facetas técnicas de sua profissão, sempre lhe animou os meandros sensíveis da arte, da história, da literatura e da pintura. Isto talvez fizesse dela a pessoa tão requisitada e ocupada. Poder-se ia dizer que era alguém a quem o sucesso chegara cedo e se consolidado. Sua rotina diária compreendia o café da manhã, com seu companheiro, o trabalho ininterrupto em seu escritório, para mais tarde retornar a casa já noitinha. Algumas vezes almoçavam juntos em casa, outras no restaurante e outras havia em que só à noite se encontravam.
Serafim, formado em letras, entrara para a escola de dramaturgia, dedicara-se à pesquisa de raízes folclóricas do teatro e como escritor que era, escrevia artigos para os principais jornais, peças, adaptações para o teatro e cinema, contos, se encontrando no seu segundo romance como autor consagrado. Algumas vezes pintava e fazia incursões em cenografia e iluminação.
Não possuíam ainda filhos, o que também não lhes fazia falta naquela instância de suas vidas. “ melhor não tê-los, e se não os temos como sabê-lo...”advertia o poeta Vinícius de Moraes.
Após o desjejum matinal, quando Delfina partia, Serafim se sentava na varanda a reler seus artigos publicados nos jornais, pesquisar, escrever, e a devanear embevecido com os seus personagens que tomavam vida nas páginas em branco. Entre uma e outra viagem criativa, pedia solicitamente a Josefa para servir-lhe um cafezinho forte e aromático que só ela fazia tão bem. ─ Obrigado Josefa, este está delicioso. Ao que Josefa meneava a cabeça em sinal de satisfação exibindo um tímido sorriso de aquiescência.
Passaram-se os dias e o cotidiano se repisava: ─ Obrigado Josefa, este está delicioso. E Josefa passara a demorar a trazer o café, servi-lo morno, requentado e sequer resmungar ou mover a cabeça em sinal de aprovação. Serafim comentou com a mulher o mau humor de Josefa que sempre lhe fora tão solícita, e esta aguardou o momento propício para falar com ela, ao que escutou o desabafo:
─ Eu num agüento mais Delfininha, você uma mulher trabalhadeira, num pára em casa, só trabalhando feito condenada, para sustentar este marmanjo sem fazer nada, só tomando cafezinho o dia todo! Bota este homem pra trabalhar minha filha!


Waldir Pedrosa Amorim 8/9/2006

Envelhecimento e Contemporaneidade

Era um poeta idoso, inquieto. Chamavam-no filósofo, como denominam poeta aos que tentam deslindar a alma humana.
Acabara de chegar naquela cidade de um planeta isolado do resto do universo, vislumbrando incorporar mais algum conhecimento. Afinal, os poetas e os filósofos arrancam da sua natureza perceptiva e especuladora a matéria das indagações.
Nessa busca, se submeteu a viajar naquele bólido gigante, ao qual se recusava denominar de espaçonave.
Ao chegar, constatara indivíduos em tudo semelhantes aos do seu planeta de origem.
Conduzido ao alojamento num enorme aquário deslizante, percebeu através do vidro cristalino que a população era assustadoramente jovem. Não visualizou um único indivíduo que se assemelhasse à sua idade nas ruas.
O guia lhe aprazou a hora em que seria recebido no auditório do Centro de Relações Exteriores (C.R.E.). Lá debateria sobre a cidade, seus hábitos, seus costumes e sua evolução, num programa que compreenderia um ciclo de exposições.
Ao ingressar no CRE introduziram-lhe um micro-chip sob a pele para rastreá-lo e deram-lhe ciência de que não poderia ter relacionamento carnal com os nativos.
Finda a exposição viu esclarecida a inumerável quantidade de jovens que há pouco observara: haviam implantado um programa de modificação biológica na população, no qual subtraíram os caracteres exteriores de envelhecimento. Era um processo de deleção fenotípica superseletivo, implementado há um século e meio. Como resultado ninguém aparentava mais que vinte e cinco anos de idade.
Ouviu boquiaberto as explanações e num dado instante em que facultaram a palavra aos presentes, perguntou:
─ Como percebem quem é de fato mais velho ou mais jovem?
─ A memória redunda na percepção do tempo interior. A visita à nossa memória nunca nos deixa impunes.
─ E em que as similaridades das aparências ajudaram as relações entre as pessoas?
─ Em tempos remotos éramos um povo que discriminava ora exaltando, ora depreciando, tanto a juventude quanto a velhice.
Esquecemos que a finitude é, por diversas maneiras, comum ao moço e ao velho. A vaidade é míope à essência do que representamos. Atualmente comemoramos a contemporaneidade.
Ele calou-se e saiu dali conjugando envelhecimento e contemporaneidade.
Naquela primeira noite, sozinho, num planeta bizarro, escreveu versos inusitados.

Waldir Pedrosa Amorim
Clube do Conto da Paraíba sábado, 23 de setembro de 2006
Tema: Envelhecimento

08 Setembro 2006

Oriente


Em Kyriat Shmona, perto da fronteira do Líbano:


─ Eu lhes contei histórias do nosso povo perseguido, fiz-lhes entender a estupidez do racismo, do preconceito, da falta de escrúpulos, da guerra, das perseguições. Para eles esta terra foi prometida duas vezes: a que nos prometeu o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó e a que lhes prometi com o meu testemunho, trabalho e dignidade. Para eles, o Oriente era mais que ponto cardeal, era orientação, caminho. Era assim que eu descrevia. Hoje é deserto de valores humanos, imensidão de dores que desorientam. Por que logo os meus filhos?
─ Sara, não é assim, não faça tempestade em copo dágua, eles continuam inocentes e humanos como antes. Que tipo de trauma poderão ter? Lembrarão disto como uma atividade escolar sem conseqüência. As crianças estão sendo ensinadas a aceitar com naturalidade o fato de que seu país bombardeie outros quando considera seu território ameaçado. Esta é a realidade!Eles e outras crianças da escola, apenas escreveram com canetinhas coloridas: “de Israel com amor” nos mísseis que serão usados para bombardear o território libanês.



[Sala vazia, Sara louca. Numa foto rasgada sobre a mesa, um menino e uma menina escrevem num míssil com canetas de ponta porosa]




Waldir Pedrosa Amorim

06 Setembro 2006

Memórias da Chuva

Para Ronaldo Monte

Fossem livres os dias de sol, ou limitados os dias de chuva, o seu vigor de criança prevalecia. Com lápis de cor e papéis de caderno, compunha as embarcações que o conduziriam por mares nunca dantes navegados.
Desenhava navios, pequenas embarcações, navios mercantes. Percorria o mundo em busca de algum tesouro e, vez por outra se deparava com navios piratas. Canhões, porta-aviões, abatiam aviões inimigos em pleno vôo, sobrepujando as esquadras aéreas.
Nos dias de chuva, colocava seus barquinhos, nas águas que corriam pelos córregos. Naufragando ou se perdendo, conduziam-no consigo. Eram nascidos das dobras de papel, no fantástico e efêmero estaleiro que comandava.
O dia chuvoso propiciava andar de galochas, capa e guarda-chuvas, impermeabilizando o tempo de lá fora, do tempo de dentro. Era algo mais que aventura.
As goteiras dentro de casa, e, aquela sobre seu colchão, fora tomada como se houvesse molhado a cama à noite com xixi. Fazer xixi na cama era uma desonra para um almirante, e muito mais, para um armador. O frio e aquela cantiga de ninar sobre o telhado!
Mais taludo, freqüentava as reuniões da paróquia para ajudar os mais pobres nas épocas de chuva forte. As casas despencavam das barreiras dos morros, onde eram erguidas.
As enchentes, em princípio, eram festas das águas carregando as baronesas, as encostas, o capim, o boi e o cavalo morto. Posteriormente era tragédia, que invadia as casas, ou as arrancavam das ribanceiras. Os rios com seus mistérios se assemelhavam ao mar. As margens eram portos destruídos. As chuvas eram torrentes de agonia. As barragens dos açudes, portões escancarados. A sazonalidade, o corisco e o trovão, gritos da natureza. Capibaribe, Capiberibe, Beberibe; rios do Recife, rios de Manuel Bandeira.
Através da janela, contemplando a chuva fina e fria que se derramava; rabiscou seu primeiro inverno interior:
Chove,
gotas d’água
pingam e respingam.
Faz frio.
Parece a gelidez do sofrimento humano.


Waldir Pedrosa Amorim
13/8/2006 Clube do Conto da Paraíba 19/08/06

Ampulheta, viagem no tempo.


Possuía estranha obsessão por uma ampulheta antiga herdada de seu bisavô, guardada cuidadosamente sobre a escrivaninha. A confluência daquelas duas formas cônicas dispostas em sentido oposto, separadas por um diminuto estrangulamento havia lhe dado a mais que perfeita noção do tempo.
Grãos finíssimos a escoarem lenta e continuamente por um pertuito pré-determinado, obedecendo a mais singela lei da gravidade conferiram-lhe a percepção da inexorabilidade do que passa e não retorna, do acontecido que não retroage, do feito que não se desfaz.
Grãos medonhos bem mais plangentes que o tique-taque do relógio das horas, com mais poderes que os sinos da matriz.
Aprendera quando o tempo fora imensurável e despreocupado, quando pertencera aos relógios de sol como marco de sombra refletida, quando teria sido vela consumida sobre a cabeça dos escravos que o anunciavam. Escravos do tempo pensou consigo, como outros se transmutariam em escravos do tempo anunciado.
Lembrou que ganhara dos filhos um relógio de pulso capaz de fazer conferir as horas em qualquer latitude do mundo. Mal sabia ajustá-lo para as horas de Paris, Nova York, Moscou, Buenos Ayres, Londres e do Rio de Janeiro. Conferia-o para as horas brasileiras, ou melhor, dito, do seu pequeno rincão onde se deslocava daqui para acolá a cumprir seus passos comedidos gastos na condução repetitiva da rotina.
Era noite e diante da velha ampulheta rememorava o tempo das crianças. Sabia que a elas não se podia prometer um tempo por demais comprido. Aprendera que quanto menores, mais o aguardar se transformava em eternidade. Com seus avós aprendera o tempo paciente dos idosos. Consigo próprio, o tempo doce das conjecturas, o duro tempo das conquistas e o amargo tempo do desprazer.
Havia jantado e sentara-se para ler um pouco, devanear um pouco, quem sabe escrever um pouco. Curto era este necessário tempo noturno que por vezes lhe retribuía manhãs sonolentas quando varava as madrugadas, por entusiasmo, por obsessão. Era seu modo de se refestelar de um tempo útil em significados.
Vigilante lá estava sua ampulheta escorregando uma metáfora de vida. Rabiscou um poema e inquieto foi deitar tomando um livro de poesia de Elliot para relê-lo enquanto o sono lhe possuísse. Descobriu um poema iniciado assim: Eis-me aqui, um velho em tempo de seca, / Um jovem lê para mim, enquanto espero a chuva....... Na epigrafe do poema uma citação de Shakespeare: Não és jovem nem velho, / mas como, se após o jantar adormecesses, / Sonhando que ambos fosses. Adormeceu e sonhou. Seus sonhos deslocados do tempo, diziam da atemporalidade dos mistérios de sua alma.


Waldir Pedrosa Amorim
Clube do Conto da Paraíba
TEMA: Uma viagem no tempo
João Pessoa quarta-feira, 2 de agosto de 2006 / sábado, 5 de agosto de 2006.

Mesmíssimo.

Metódico, apreciava o que não saía dos trilhos. Acordava às seis horas da matina, se alongava ao invés de se espreguiçar, fazia ginástica da força aérea canadense, tomava banho, escanhoava a barba, punha aqua velva, aparava o bigode, penteava os cabelos após untá-los levemente com brilhantina. Vestia com esmero a roupa deixada de véspera sobre a cadeira. Combinava sapato com o cinto, camisa com meia. Calça bem vincada, estirada perna com perna na noite anterior. Dia a dia...
Tomava o café da manhã preparado pela mulher desde as seis, lia a página de esporte do jornal enquanto ouvia as notícias vindas do rádio. Ao sair beijava a mulher, chegando ao trabalho pontualmente às oito horas. Antes de sentar-se em seu bureau, espanava a cadeira e os objetos. Fora do recinto uma turba o aguardava impaciente. Atendia o primeiro e assim sucessivamente.
Conferia o relógio que alarmava meia hora antes do expediente findar, interrompia o atendimento, recolocava os objetos dentro das gavetas e dirigia-se ao toalete. Penteava os cabelos e descia à garagem pelas escadas, para despender um pouco de energia.
No estacionamento inspecionava o carro externamente. Certifica-se que não sofrera um arranhão.
Dirigia com o cuidado de não forçar as marchas, evitando um desperdício de combustível. Reduzia a velocidade quando vislumbrava obstáculos, a poupar os freios.
Almoçava como de costume, peixe nas segundas quartas e sextas feiras; frango nas terças, quintas e sábados. Fazia a sesta nas terças e quintas e sábados. Nas segundas quartas e sextas, tinha um intercurso sexual com a mulher. Jamais uma foda.
Às duas horas a rotina se repetia. Às seis e meia, retornava para casa. As sete tomava sopa, das sete as nove assistia televisão e vestia o pijama listrado após banhar-se, escovar os dentes e arrumar na cadeira a roupa do outro dia.
No trabalho não gostava de emprestar seus pertences a ninguém, especialmente suas canetas, sua borracha, seus lápis, seus carbonos, seu perfurador, grampeador, apontador, ou mesmo que fosse a folha de papel ofício que de direito não lhe pertenciam.
No atendimento ao público era ríspido, impessoal. Tratava de complicar os trâmites dos processos, exigir vírgula por vírgula e ponto por ponto de qualquer regra instituída. Regra é regra! Repetia.
Se pudesse complicar, não facilitaria. Se pudesse ser rigoroso, magnânimo não seria. “Para que informar se já deviam saber?”
Gabava-se de ser linha reta, linha dura, de criticar quem andasse fora de linha. Seu poder e influência eram da metragem dos seus caprichos.
Aos domingos lavava e encerava o carro e partia para a rinha com seus galos e canários.
Não tinha filhos. Casara tarde, quando conquistou materialmente o que almejara.
Sofria de prisão de ventre, ejaculação precoce, enxaqueca, distonia e burocracia.
Mesmíssimo morreu de enfarte logo que foi aposentado.

Waldir Pedrosa Amorim,
Clube do Conto da Paraíba 29 de julho de 2006.
Tema Burocracia.

Uma conversa de jardim.

Se há algo que aprecio muito são as plantas, não importam quais. Frutíferas, ornamentais, gramíneas, avencas, hortaliças, cactos e até mesmo o verde musgo que atapeta os locais úmidos e com pouco sol.
De quem herdei este gosto? Penso que da minha mãe que cultivou por algum tempo cactos exóticos. Mais tarde, um filho meu descobriu que ela possuía o dom de recuperar plantas dadas por desenganadas, de tão mirradas que se encontravam. Passamos a deixar para recuperação com ela nossas depauperadas plantinhas com folhas amareladas e à beira da morte. Tornavam-se robustos vegetais alegres e sorridentes. Ela costumava falar que conversava com as plantas, duvidávamos, até que um dia passei a entender conversar como mais um modo de afeição.
Por onde passei e morei, conduzi comigo mudas do meu jardim da infância. Possuí plantas carnívoras, tive prazer em ver crescer o coentro oloroso em leirões, aguardei com paciência os tubérculos como a batata-doce, a macaxeira e o inhame, cultivei rosas e outras flores. Teimo em aprender algo mais com as orquídeas.
As bananeiras foram meus parceiros de guerra na infância, em quem fincávamos uma faca sobre o corpo macio. Os mamoeiros, com seus pecíolos longos e ocos me produziram efêmeras flautas e encanações para cidades de areia e devaneio.
Não imaginem que eu tenha sido criado em sítios, chácaras, fazendas ou engenhos. Apenas tive o ludismo do contato com a terra e a natureza nos quintais. Onde hoje me serve como local de trabalho, plantei um jardim na frente e outro nos fundos. Quem sabe, cuidador de gente e plantas se assemelhem, em sendo jardineiros?
O apuro de observar a necessidade da atenção, da poda, da adubação e das escoras que percorrem o caminho onde a vida tem início, meio e fim.
Hoje, numa conversa no jardim com um agrônomo de ascendência oriental, me impressionaram algumas reflexões.
Um dado número de plantas disputando a terra representa bocas carecendo de nutrientes.
O vegetal é mais propenso às doenças quando desnutrido.
Os bambus brotam à distância, necessitando da proteção de um vaso que contenha seus rizomas.
Uma espécie de bambu chinês se comporta como pessoas caladas, passam até sete anos em silêncio e brotam repentinamente quando menos se espera.
Eu havia lido que os bambus mais delgados são curtos, os bambus mais largos são compridos, e ficam eretos, balançando-se suavemente quando o vento sopra sobre eles, o som provocado pelo roçar dos caniços lembra gemidos e vozes humanas.
Não cantariam as plantas? Recordo T.S.Elliot em Four Quartets:
“Música tão profundamente escutada que
Já não a escutamos, posto que nós mesmos
somos música...”


Waldir Pedrosa Amorim

quarta-feira, 12 de julho de 2006

O prisioneiro.

Alma insubordinada que sente repulsa pelo cerceamento, era a do Dr. Tavares. Pulsava alegre entre as coisas feitas com espontaneidade e com igual facilidade constrangia-se entre aquelas desenvolvidas por obrigação. Era capaz de obstinadamente suplantar os limites do corpo, tantas vezes exausto, no desempenho de tarefas úteis, no entanto impacientar-se em minutos no exercício de formalidades.
Assinar ponto de chegada e saída no trabalho custava-lhe muito. Custava-lhe inclusive e freqüentemente perdas pecuniárias e aborrecimentos administrativos.
Com satisfação ultrapassava o tempo destinado a atender a seus clientes, não lhes recusava uma palavra de conforto, um gesto de generosidade ou um tempo para ouvi-los falar da vida, que se misturava aos sofrimentos, às conquistas, as decepções, as alegrias, as adversidades.
Vez por outra, recebia de volta alguns presentes incomuns e bem humanos que nutriam a fé e não a vaidade, como costumava falar. Era um jovem casal que vinha agradecê-lo pela confiança que sua escuta e suas palavras provocaram, pois, após inúmeras tentativas negativas de engravidar, passaram a ficar despreocupados e enfim um filho havia nascido sem medidas especiais que o explicassem. Outros, em circunstâncias parecidas vinham trazer-lhe o bebê para uma foto consigo.
Outro, fez uma coletânea de músicas dedicadas ao nenê prestes a nascer e vinha entregar-lhe e assim por diante.
Um clínico dedicado, encontra na simplicidade dos gestos o apreço que trafega em via dupla. Aquele paciente idoso, aquela outrora criança, os familiares daquele paciente bem grave.
A medicina e o médico não deixarão de ser um porto de esperança, único em certas circunstâncias. Daí a dúzia de ovos de capoeira da cliente antiga, o peixe tucunaré do outro, aquela humilde panela embrulhada num pano alvinho e colocada na sacola, e dentro dela uma posta de peixe especialmente preparada por quem a trouxe, aquele guiné ou galinha da angola, contrito em uma caixa de papelão cheia de orifícios e com apenas o pescoço para fora.
E assim estes gestos se multiplicavam : um galo, um peru, um queijo do sertão, uma manteiga de garrafa, um molho de feijão de corda, umas lagostas ou camarões cozidos, uma galinha gorda, um quarto de bode, uma garrafa de mel de abelhas, um jerimum, uns abacaxis, laranjas, mangas, flores, canetas, camisas, perfume, sabonete, um cartão de natal, um cartão com frases prontas, uma cesta de natal, uma garrafa de vinho, ou, o cliente que perguntou se queria que ele lhe desse um três oitão, referindo-se a um revólver calibre trinta e oito, que foi sutilmente recusado.
Naquele dia, atendera uma cliente que há quatro anos não aparecia. Consultara-o para dizer que sua vida havia mudado, passara a perceber o mundo, os seus próprios problemas e, mesmo a sua saúde, de forma muito mais tranqüila. Descobrira que não somente o fato do esposo ser alcoolista lhe amargurava a vida, senão também sua forma de encará-la. Atribuía sua serenidade e sua tolerância atuais ao longo tempo que passara vindo às consultas sempre com receio de que estivesse com uma doença grave. O fato de me escutar e vez por outra me encorajar a refletir, contribuiu para a minha saúde atual. Não quero medicação nem exames, vim para agradecer-lhe, disse.
Mas, na manhã deste dia atendera um caso inusitado. Viera para realizar um exame especializado um apenado, escoltado por seguranças à paisana e algemado. Para a execução do exame necessitava também do concurso de um anestesista.
Ao sabê-lo na sala de espera, escoltado e algemado, instruiu para que as pessoas que lá se encontrassem fossem ficar noutro recinto, afim de não constrangê-lo.
Como se sentem as pessoas quando postas à execração pública? Menos que isso, como se sentem as pessoas quando revelam seus atos negativos. Quando são desnudadas de sua privacidade?
Aquele ato teria a função de resguardar o algemado, não os livres.
No momento de entrar para o exame, retiraram-lhe as algemas, forma na qual foi atendido.
O ar de vergonha, de espanto e de medo eram evidentes no semblante do prisioneiro. Ele iria ser submetido a um exame para o qual careceria despir-se e vestir uma bata aberta em suas costas. Naquele instante o seu desamparo aumentava, pelo receio do procedimento, da doença e mais ainda de como seria tratado. Não esboçava ar de piedade.
Parece que os apenados já partem do pressuposto de que os demais não nutrirão sentimentos deste quilate para consigo.
A única palavra que referiu quanto à sua condição, ao ser perguntado como vai, foi : não posso estar bem, além de preso, doente.
A condição de doente parecia pesar mais do que a de preso.
Em realidade a doença e o adoecer restringem imensamente o ser humano. Apartam-no sob variadas condições, da liberdade entendida como vida. Ser livre é de certa forma ser vivente inda que numa masmorra. O ato de pensar, imaginar, sonhar, planejar o futuro, mesmo que longínquo, por ínfimo que possa parecer, ainda é assim, um ato inexpugnável de liberdade.
Talvez por isso a pena máxima concebida pelo ser humano aos seus semelhantes e a si, seja a pena de morte.
Dr. Tavares refletindo dirigiu-se para o doente e lhe falou de forma coloquial: Tranqüilize-se, aqui entre nós você é um ser humano como qualquer outro. Está aqui para ser tratado, nós iremos tratá-lo do melhor modo possível e isto não é um favor, faz parte do nosso ofício e é nossa obrigação.
O homem esboçou uma expressão de tranqüilidade e disse calmo: obrigado doutor. Seguiu-se o sono induzido pela paz fugaz, e pela anestesia.
Dr. Tavares meditou: dormimos serenos, se confiantes que nos encaram como o ser humano que somos.

quinta-feira, 5 de agosto de 2004 23:21:43
Waldir Pedrosa

João Pessoa - Uma cidade onomástica.

Algo mais que um nome, anda por trás da denominação de nossas ruas, avenidas, logradouros e prédios públicos.
João Pessoa é uma cidade com uma forte identidade de sua classe mais influente.
Cidade onomástica, eu diria. Não creio mais que todas, parecendo-me mais que muitas e, sem o desejo de findar este ciclo; embora fosse o momento de fazê-lo!
Avenida Epitácio Pessoa, Argemiro de Figueiredo, Pq Sólon de Lucena, Rodovia Mário Covas, Pq Arruda Câmara, Avenida Ministro José Américo de Almeida, João Machado, João Maurício, Rua Odilon Mesquita, Rua Francisca Moura, Camilo de Holanda, Duque de Caxias, Pedro II, Pedro I.
Em pleno e abominável golpe militar de mil novecentos e sessenta e quatro foi com pródiga e com nítida subserviência que transformaram os seus mentores e continuadores em nomes de logradouros públicos, conjuntos habitacionais e ruas: Conjunto Marechal Castelo Branco, Costa e Silva, Ernesto Geisel, Mário Andreazza... e até Valentina de Figueiredo, numa patética atitude de puxa-saquismo aos que frontalmente feriram a democracia, ursurparam as liberdades democráticas e cometeram por dolo ou anuência massacres a indefeos cidadãos.
Ao lado de tantos nomes ainda sequer devidamente envelhecidos e maturados pelo reconhecimento de todos, brotam outros ainda imberbes e sem aguardar o reconhecimento da história por seus feitos.
E assim, pelas vias das influências, “presenteiam” à nossa urbe ingênua e cândida, nomes próprios em edifícios, prédios públicos, logradouros e monumentos. Nomes de contemporâneos vivos, muitas vezes sem passado algum de contribuição coletiva ou, de benemerência.
Como explicar a importância histórica e a relevância de Karla, Alessandra, de Marcos, Ernesto, Artur e José na nossa história.
Trago à reflexão se não representam o mau exemplo da vaidade supérflua, de uma arrogância e bajulação, que deveríamos abandonar, transformar e até mesmo, delinear mecanismos legais, que impedissem sua progressão.
Os falsos valores deseducam, discriminam e, especialmente expõem ao ridículo nossa querida terra e nossa gente.
Gosto muito da sonoridade e da sabedoria provocada pelo imaginário popular, que cria apelidos que se tornam mais lembrados que os nomes: Beira Rio, Bica, Lagoa etc., substituindo a pompa onomástica pelo codinome.
Adoro os nomes eivados da herança de nossa natividade como Tambau, Tabajaras ou, outros como Pavilhão do Chá, Cabo Branco, Ponto de Cem Réis, Bairro de Mandacaru, praias de Areia Vermelha, Picãozinho, Porto do Capim, ou, outros das vizinhanças da capital, como Areia Dourada, Praia do Jacaré, Ilha da Restinga ou no prolongamento das praias: Jacumã, Tambaba, Coqueirinho, Praia Bela, Carapibus, Tabatinga. Nomes que denotam jeito e gosto de cidade. Que convidam o residente ou visitante a transitar por ruas coloridas e amáveis, sem a dureza dos oficialismos que encobrem e anuviam o coração.
As cidades carecem desabrochar seu ar e seus traços lúdicos que acariciam a mente e os sentidos de quem abriga. E sendo nomes de locais de serventia pública, não devem ser confundidos com pastos ou quintais que possuem donos e domínios.

Waldir Pedrosa

A Inusitada Exclamação.


Há muito, seu casamento se desfizera entre várias tentativas de contemporização. Eram sete anos de tentativas de acerto que nunca se ajustavam. Com dois filhos ainda pequeninos, ainda pensava em resgatar aquela união que tentava ser a antítese de casamentos vigentes desfeitos. Havia investido em desejos de um lar tranqüilo, em oposição ao dos seus ancestrais que suportaram até às últimas conseqüências uma convivência desmoronada. Sempre que tinha um entrevero, dizia de si para si mesma: terei forças para não tornar minha união um peso, meu amor um fardo, minha paciência uma arma que ata almas separadas. Porém a união, o amor e a paciência possuem um tempo, que dá compasso a um relógio interior que o determina em ritmo peculiar. Fosse apenas o tempo, o juiz inexorável das angústias, haveriam respostas logarítmicas pré-estabelecidas a cada caso. Mas, o tempo da dor corrói o semblante, em muitas ocasiões, com marcas reversíveis, em outras com irreversíveis marcas que desnutrem o corpo da juventude, da vivacidade, do frescor e brilho do olhar. Por vezes, julgava uma injustiça que a sorte lhe pregava, outras tantas ruminava diante da lamparina tênue de desejo e de paixão que restava em estado de quiescência.
Seu marido era uma alma pequena para tanto corpo. Homenzarrão forte de quase dois metros vencia as agruras com a mesma força que se troca um pneu de caminhão. Seus músculos eram inversamente proporcionais ao tamanho de sua sensibilidade para perceber a alma feminina. Hábitos extravagantes de comer e de beber desafiavam limites de saúde ou de dor. Afeito a grandes farras, seu olhar não mais sabia repousar nem refletir o contexto da cena familiar de que era co-autor. Parecia sempre e sempre mais exuberante e irrefletido. Enquanto isto, o dela murchava dia a dia, a lamparina cedia sem o óleo da paixão ao ruflar do vento.
Separaram-se enfim. Não tão traumático quanto esperado, fora o desenlace. De início, ele fora morar com sua mãe. Ela ficara com a posse das crianças e a casa que co-habitavam.
Dura e solitária como toda separação, passaram-se os meses. Ele resolveu se estabelecer na Pensilvânia. Ela mantinha seu murcho olhar de estoicismo, na mesma casa junto aos seus filhos. Mais meses rolaram e certo dia a notícia de que ele havia falecido de um fatal infarto do miocárdio pelas plagas da América. Seu corpo foi transladado para sua cidade de origem e sepultado na presença da ex-mulher e de seus dois filhos.
Os dias e noites correram lépidos, nos corações da viúva e seus dois filhos. Era agora uma ausência factual do cabeça da família.
Já se passavam nove meses, tempo necessário a uma gestação, e ela andava descontraidamente a fazer compras em uma galeria de sua cidade, quando encontrou uma amiga que não a via desde a morte do seu ex-marido. Esta após os beijinhos de praxe, fitou-a da cabeça aos pés e exclamou: “como a viuvez lhe fez bem!”

E riram as duas da inusitada constatação.

Waldir Pedrosa Amorim

João e Maria

Antes que a aurora surgisse, o café preto e quente já recendia pelos pequenos cômodos da casa, se misturando ao odor de pão assado com manteiga. João já tomara banho e cuidara da patativa golada, do caboclinho, da guriatã, do papa-capim, do sabiá e do xexéu.
Alpiste e painço, para os que comiam secos e pedaços de mamão, banana, pão ensopado na água ou no leite, para os que se alimentavam de molhados. Por vezes uma mistura de sementes com castanha para o sabiá da mata.
Dedicadamente e com pressa, soprava os cochos, limpava os excrementos das tábuas, e em movimentos circulares, com os dedos indicador e médio, removia o limo das cuias de barro que se prestavam ao banho e beberagem das aves engaioladas.
Em quase todas as manhãs, ouvia os reclamos de Maria diante dos odores de fruta azeda e cocô deixados pelo xexéu e pela guriatã.
Entre o gorjeio das aves, tomava o café preto com pão assado e cuscuz, partindo para a fábrica, antes de ouvir o seu apito.
Na fábrica a cantilena era sempre a mesma: aumentar a produção, trabalhar mais rápido, não desperdiçar tempo e o eterno agouro de poder ser demitido.
Vez por outra se distraía e ficava vagaroso: pensava nos cinco filhos, na mulher ou relembrava o canto dos seus pássaros. Mas logo lhe vinha a impetuosidade de não esmorecer, diante das necessidades da família. Emprego estava difícil. Queria que seus filhos fossem alguém na vida, estudassem e tivessem um emprego mais digno que o dele. Pensava em Maria com seu emprego de lavadeira: trouxas e trouxas de roupa para lavar, passar e entregar todos os dias, junto com a filha mais velha.
Aparecera-lhe uma dorzinha na boca do estômago que começara a lhe empatar de comer, com a disposição que habitualmente tinha. O médico da fábrica o atendera apressado e antes de dizer bem o que sentia, já lhe receitara um remédio branco com gosto de pasta de dente.
Foi definhando, comendo pouco e na segunda vez que foi ao ambulatório da fábrica lhe prescreveram remédios para verme. Afinal verme era a mais certeira doença que aos pobres acometia.
Nada de passar a dor, quando resolveu tomar uma garrafada que um vizinho indicara.
Não deixara de ir ao trabalho, nem de se esforçar para ter pressa em aumentar a produção, trabalhar mais rápido, não desperdiçar tempo. Agora sentia mais um terrível agouro: e se eu não puder mais trabalhar, como ficará minha família, vão viver de que?
Cedo da madrugada a dor aumentou: tomou um gole da garrafada, foi cuidar dos pássaros enquanto o café coado por Maria expandia o seu odor e, lhe despertara ânsia de vomitar ao invés de apetite. Vomitou sangue vivo e talhado, em grande quantidade.
Maria acordou os filhos, e se valeu de um único vizinho, que possuindo um carro velho a todos acudia. Foram com pressa a um serviço de urgência.
Um único médico atendia uma multidão que aguardava pelos corredores.
-- Doutor, meu marido está se acabando em sangue, cuide dele, por favor.
--Como ele tem mais dois, e eu sou um só, o médico sentenciaria.

Passadas duas horas, que duraram uma eternidade, João, branco que nem a penugem do peito de sua patativa, foi atendido e logo removido para outro hospital, pois ali faltava sangue, não havia exame de endoscopia, nem uma unidade de cuidados intensivos de que certamente precisaria.
Corria com pressa a ambulância por entre os carros da cidade vigil, com João agônico e Maria desesperada.
No hospital vomitou mais sangue e um sangue transfundido corria-lhe veia adentro, enquanto aguardava o médico endoscopista que estava de sobreaviso.
Duas horas mais tarde fora-lhe realizado o exame e o médico informou a Maria: um câncer muito avançado, pouco se há de fazer; se fosse diagnosticado mais cedo, teria chance de ter cura.

-- Como é que uma pessoa assim, não procura um médico antes e deixa chegar a esta situação? Esta doença é lenta, é antiga para atingir um estado deste!
-- Mas doutor...
Maria tentou falar, mas logo foi possuída pela lentidão extrema que a revolta e a perplexidade construía, removendo o chão de seus pés.


Waldir Pedrosa Amorim

01 Setembro 2006

As agruras de um neófito.

Como seria bom que neófito tivesse apenas por explicação, a descrição vocabular do
seu significado: “iniciante, aprendiz de qualquer ofício; novato, principiante”.
Ninguém imagina, ao se deparar com uma pessoa anciã, que aquelas cãs branqueadas pelo tempo, algum dia tivessem pertencido a um principiante. Do mesmo modo, se estranha a afoiteza na maturidade ou a parcimônia na juventude. Ledo engano, Dr. Tavares bem sabia, que sua vivência de hoje, fora construída na imaturidade de outrora. Relembrar isto era como retroceder, encontrando ora um refrigério para os seus anos, ora um exercício de humildade para o seu espírito. Relembrava o trecho de um poema de T.S.Eliot, que assim dizia: “Não és velho nem novo, é como se recostado, cochilasses e sonhasses, que cada um deles fosses”. Isto o conduzira a algumas lembranças.
Ainda aprendiz, fora dar um plantão em um hospital que atendia a adultos e crianças. Sempre levava consigo um pequeno caderno de anotações, com as prescrições para as situações mais freqüentes. Um ponto vulnerável na sua prática de recém formado, eram os pacientes pediátricos, especialmente por necessitarem de ajustes nas doses dos medicamentos.
Chegara-lhe certa ocasião num plantão noturno, uma criança com cerca de seis meses de idade, no colo de sua mãe. Ele tratou de se desvelar no atendimento. Voltando-se à criancinha perguntou: Como é o seu nome? Ao que a mãe já sorrindo retrucou: doutor, ela ainda não fala, é muito pequenina.
De outra vez, não fora o atendimento infantil a causa do seu vexame. Um vizinho de apartamento solicitara-lhe que fosse vê-lo por apresentar uma dor no peito. Temia que se tratasse de um problema cardíaco. Examinou-o, aferiu-lhe a pressão arterial e concluiu que estava bem, talvez uma flatulência excessiva justificasse o quadro. Por via das duvidas, para comprovar que não se tratasse de um infarto do miocárdio, mandou que este descesse e subisse, pela escada, os cinco andares do prédio onde morava. O seu vizinho sobreviveu, pelo fato de nunca haver sofrido do coração. Caso contrário, o esclarecimento da dor teria tido funestas conseqüências.
Dr. Tavares cochilava na espreguiçadeira, ou preguiçosa, como gostava de chamar, colocada na varanda, após o almoço. O vento soprava, nem cálido, nem frio O outrora se embalava com o agora em coloridos sonhos atemporais. Como uma música eletrônica, seus devaneios pareciam compostos por uma superposição concomitante de monofonias, tornando presentes, o hoje e o ontem.
Parecia uma mixagem bem concebida, que incluía o iniciante e o experiente médico.

Waldir domingo, 29 de fevereiro de 2004

28 Agosto 2006

Somos Governados por Crianças Mal-Educadas de Ontem.

Reflexões sobre a importância de Maria Clara Machado no teatro infantil.

Por acaso, eu estava no Rio de Janeiro quando ocorreu o falecimento de Maria Clara Machado em trinta de abril de dois mil e um..
Ultimamente, tenho tentado falar com prudência de meus mitos e heróis pela comoção que me causam. Via de regra, são pessoas que platonicamente convivi e amei através das suas obras, de sua presença na nossa cena cotidiana. Tornaram-se sagrados monstros, de peculiares ensinamentos e idéias ou, até mesmo de testemunho, de coragem, perseverança, simplicidade, retidão e dignidade.
Estas pessoas vêm sendo produtoras de um bem imaterial, que considero escasso na nossa vida social. Refiro-me à cultura, entendida como legado de um conhecimento sistematizado quer nas ciências, ou nas artes.
E a diáfana lição que penso, a morte nos dá, é o buscar ser pessoas que permaneçam além da morte, além da casca já cansada e impossibilitada de continuar a carregar uma alma inquieta.
Uma alma que constrói se dá e assume responsabilidades por viver e por permanecer em movimento. Esta lição não a inventou eu, apenas ela me é revivida a propósito desta “perda” que o teatro brasileiro é acometido.
Gosto muito e vivo repetindo “ad eternum”, uma frase de Marie Nöel, que se tornou meu lema e justificativa ao esforço ético de encarar a vida e a morte: “quando nada mais conseguirmos realizar, o bom e o belo que realizamos seguirão sem nós o seu destino”.
Assim, neste instante, penso no significado desta dramaturga octogenária que morreu há pouco tempo.
Conhecia-a pela primeira vez através de sua obra “Pluft o Fantasminha”. Nesta época, eu tinha filhos pequenos, crianças com quem eu havia de me preocupar e oferecer um cabedal de cultura e sensibilidade que os alimentassem no hoje e no porvir.
Minha primeira dificuldade e aprendizado foi entender com eles, que criança nem é adulto em miniatura, nem tampouco seres limitados em inteligência e percepção. Portanto não merecem o tratamento dos tolos, dos bêbados, dos anciãos em sua caducidade ou dos débeis mentais. Criança é apenas criança, sem adjetivos restritivos ou confusos qualificativos. O resto, é nossa ignorância e desconhecimento.
Ainda é recente a aquisição científica dos conhecimentos sobre suas peculiaridades e individualidade. Ainda são muito novos, desconhecidos da maioria e mesmo especulativas as produções científicas neste particular deixadas por Freud, Melanie Kleine, Piaget, Betelhein e outros.
Por negligenciar a importância dos valores afetivos, comportamentais, culturais da criança é que talvez vivamos tendo desdobramentos sociais tão torpes. Uma sociedade, contaminada de pessoas em cargos de direção, que não conseguem professar a verdade como atitude na vida coletiva.
Não estaremos sendo governados por mal-educadas crianças de outrora?
Mas, voltando a Maria Clara Machado, através dela descortinei uma obra magnífica de conteúdo e de respeito pelo sentir da pessoa criança.
Muito depois, lendo o livro do Bruno Betelhein: A Psicanálise dos Contos de Fadas imaginei que, tivesse ele conhecido a historia de Pluft, certamente a colocaria como o paradigma de um conto, escrito por uma fada, que soube expressar numa peça infantil com maestria, que fantasma também tem medo de gente. Sem falar daquela outra peça que mostrava que uma bruxa também pode ser boa.
Estas bem colocadas histórias na dramaturgia infantil permitiram muitas tensões escoarem livremente pelo ralo da vida com naturalidade, apaziguando o medo do desconhecido e tornando mais forte e preparada a alma criança!
Meus filhos cresceram, e como médico clinico que sou, fui me deparando sempre e sempre com as pessoas humanas adultas carentes de cuidados e de compreensão.
Deparei-me com medos, fantasmas, fobias, padeceres de corpo e da alma e, especialmente com o desamparo que as situações obscuras, o desconhecido e o escuro provocam.
E aí descobri outra vez como me foi e tem sido cara aquela dramaturga que há instantes morreu.
Esta minha admiração e respeito se retemperaram no entendimento que tive do ensinamento básico daquela sua obra: o medo como experiência biunívoca entre o fantasma que tem medo de gente e do ser humano que tem medo de fantasma. O estado afetivo suscitado pela percepção do desconhecido.
O obscuro se enxerga quando simplesmente uma luz é acesa. O medo torna-se corriqueiro e singelo pelos modos que o desfazem.
Que o Rio de Janeiro e o Brasil não esqueçam o Tablado e muitos outros ensinamentos e deixados pela obra e pelo trabalho de Maria Clara Machado.
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Waldir Pedrosa Amorim,
Rio de Janeiro maio de 2001

BETO BRITO UM OLEIRO DO CORDEL E DA MÚSICA NORDESTINA

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